Um país em busca de Cervantes

Após séculos de incertezas, Espanha dá início à investigação sobre o destino do corpo do autor de ‘Dom Quixote’

iG Minas Gerais |

Adaptações. 
Obra do escritor espanhol foi montada recentemente pela mineira Cia. Burlantins
Leo Drumond / NITRO
Adaptações. Obra do escritor espanhol foi montada recentemente pela mineira Cia. Burlantins

Hoje em dia ele pode até ser um dos heróis literários da Espanha, mas durante sua vida, quatro séculos atrás, Miguel de Cervantes teria sido considerado um verdadeiro “perdedor”, segundo Fernando de Prado, historiador espanhol. Autor das aventuras do cavaleiro errante Don Quixote, Cervantes viveu na pobreza, perdeu uma promoção no exército e foi aprisionado por piratas durante cinco anos, depois que seu navio foi interceptado. O reconhecimento e o sucesso de seus textos vieram tarde demais para que ele conhecesse a fortuna.

Uma das poucas coisas boas que aconteceram com Cervantes foi o fato de ele ter sido enterrado em 1616 exatamente onde queria, no convento das Trinitarias, em Madri. Entretanto, o local preciso nunca foi encontrado, mas isso é algo que Prado acredita que pode descobrir, talvez em abril, quando uma equipe de pesquisadores usando uma tecnologia de radar puderem entrar no claustro com a esperança de encontrar e identificar os restos mortais do escritor.

Por ser soldado, Cervantes pediu e recebeu permissão para ser enterrado no convento porque a ordem religiosa havia conquistado sua liberdade do cativeiro. O convento continua no mesmo local, em um bairro conhecido como Barrio de Las Letras, em homenagem a ele e a outros escritores que viveram lá durante um período em que Espanha era o lar de alguns dos maiores escritores, arquitetos e pintores da Europa.

Mas, estranhamente, seja por negligência, esquecimento, reverência pelos mortos ou pela aparente impossibilidade da tarefa de desvendar um enigma obscurecido pela passagem do tempo, nenhum esforço foi feito para localizar o túmulo de Cervantes.

A Espanha deveria ter procurado por Cervantes “há muito tempo”, afirmou Alfonso de Ceballos-Escalera, editor e historiador que pesquisou a família do autor. “Eu acredito que fizemos menos que outros para descobrir detalhes sobre nossas celebridades mais famosas, pois isso corresponde a uma visão de mundo católica, que acredita que o que importa após o enterro é o espírito, não os restos mortais”.

Para historiadores como ele e outros, a relativa obscuridade do local onde Cervantes foi enterrado é um contraste terrível com o lugar importante ocupado por ele no panteão da literatura espanhola e de todo o Ocidente.

“O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha”, publicado em dois volumes em 1605 e 1615, geralmente é visto como a fundação da ficção moderna. Os principais personagens e eventos do livros são conhecidos de todos no mundo de língua espanhola e influenciou a literatura e a língua ao redor do planeta, incluindo a palavra “quixotesco” e a expressão “lutando contra moinhos de vento”, uma referência aos vários atos amalucados de Dom Quixote, quando ele ataca moinhos de vento por acreditar que está lutando contra gigantes poderosos.

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