Como se faz uma orquestra

Filarmônica de Minas Gerais acumula elogios e exporta seu próprio modelo

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

A sérvia Ana Zivkovic foi selecionada em 2011
GUSTAVO BAXTER / O TEMPO
A sérvia Ana Zivkovic foi selecionada em 2011

A Orquestra Filarmônica de Minas Gerais (OFMG) nem parece ter apenas seis anos de existência. Sua ainda pequena trajetória acumula ingredientes dignos de “colegas” veteranas. De plano-piloto, que tinha prazo de apenas quatro meses para ser cumprido, ganhou corpo em tempo recorde chamando a atenção da crítica, de músicos que viram ser abertas novas oportunidades, além de outras instituições para quem a OFMG é um exemplo.

Se em 2007, quando foi formada pelo maestro Fabio Mechetti – por meio de audições realizadas em capitais do Brasil e em outras cidades dos Estados Unidos à Sérvia – um dos desafios era superar o olhar desconfiado de quem nunca tinha ouvido falar de Belo Horizonte, hoje o conjunto conquista visibilidade crescente aqui e no exterior, além de prêmios.

Foi escolhido, em 2010, o melhor grupo erudito nacional pela Associação Paulista de Críticos de Artes e arrebatou, em 2012, o prêmio Carlos Gomes de melhor orquestra brasileira. Assim, apesar de viver ainda sua infância, a OFMG já possui um currículo que provoca respeito em qualquer outra orquestra considerada adulta.

Para chegar até essa configuração, Mechetti ressalta aspectos como o empenho constante pela busca de excelência em termos de repertório e do trabalho dos instrumentistas.

“Quando fui convidado para formar a orquestra, eu ressaltei que não fazia sentido criar algo que não fosse para ser de alto nível. Para minha surpresa, o governo comprou a ideia. Algo positivo que percebi aqui em relação a outras propostas semelhantes, que havia recebido no país, foi a base em um modelo de gestão que garantia uma mudança de paradigma capaz de alinhar uma orquestra brasileira com outras grandes do mundo”, afirma Mechetti.

Naquele momento inaugural apenas sete profissionais oriundos da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais estavam garantidos. De acordo com o maestro, norteou a seleção de todos os outros o mérito. Hoje, a Filarmônica conta com 90 músicos, sendo 32 estrangeiros.

“Percorri o mundo inteiro, mas com um foco em lugares onde há uma escola importante de instrumentistas, como Varsóvia (Polônia) e Belgrado (Sérvia). Nesses lugares há, por exemplo, uma grande tradição em especialistas em cordas. Apenas da Sérvia vieram para a Filarmônica 11 pessoas daquela vez. Mas também fui atrás dos brasileiros que estavam estudando fora, nos Estados Unidos, por exemplo, e cheguei até Nova York, Miami, Filadélfia”, completa.

Feitas sem a visão direta dos candidatos à vaga, as audições presenciais acontecem por meio de um biombo. A banca examinadora apenas ouve a interpretação da obra selecionada. “Nós não sabemos a princípio quem está ali. Do ponto de vista de personalidade, sexo, idade, nada disso importa. Ganha o concurso quem tocar melhor”, reforça Mechetti.

À distância. No caso de comprovadas grandes distâncias é ainda possível concorrer por meio da inscrição e envio de um DVD. Nesse caso, o conteúdo apresentado não pode ser editado e deve mostrar uma peça tocada sem pausas. Foi assim que a sérvia Ana Zivkovic, 34, conquistou seu espaço aqui, onde chegou em 2011. Por sugestão de uma amiga brasileira que estava na Alemanha, ela soube da possibilidade de participação da seleção e resolveu mudar o rumo de sua vida.

“Eu visualizei a possibilidade de estar envolvida em novos projetos. Gosto dessa ideia de conhecer lugares diferentes e me surpreendeu muito a qualidade da orquestra e dos músicos que encontrei em Belo Horizonte”, diz Ana Zivkovic.

O chileno Patricio Pradenas, 41, na Filarmônica desde 2012, fez a mesma constatação e elogia o grupo daqui ao compará-lo com outros de sua terra natal. “O nível das orquestras chilenas é muito mais baixo que o da Filarmônica de Minas Gerais. A organização também não é tão eficiente. Eu estou muito feliz de trabalhar com as pessoas que conheci aqui”, pontua Pradenas.

O paraibano e violinista Mateus Freire, 29, expõe visão semelhante quando fala da convivência com a equipe desde que chegou à Filarmônica em 2008. “É engraçado que eu me deparei com algo completamente diferente do que esperava. Achei que iria encontrar pessoas – e nesse caso especialmente os estrangeiros –, mais fechadas e até mesmo pedantes. Mas não foi isso que percebi. Achei todas elas abertas, dispostas não só a aprender o idioma mas a própria cultura brasileira”, recorda Freire.

Idade. Para ele, o clima ameno se deve também à pouca diferença de idade entre os músicos. “A Filarmônica não é jovem apenas em razão do seu pouco tempo de trajetória, mas também porque os seus integrantes estão numa faixa etária entre 30 e 40 anos. Como tem muito mais gente quase na mesma idade, todo mundo se dá bem e há um atmosfera agradável para se trabalhar”, diz.

A harpista holandesa Giselle Boeters,32, concorda. “Grande parte da orquestra é realmente jovem. Isso acontece, acredito, porque nós, que viemos de fora, estávamos em um momento em que ainda não tínhamos constituído uma família nem se fixado em um local. Essa capacidade de ser flexível e a energia dessa geração contribui para Filarmônica ser o que é”, observa Giselle Boeters.

Sobre a imersão na cultura local, ela mesma conta que, após superar a dificuldade da língua, vem curtindo bastante o que descobre desde 2012. Ritmos, como o forró e o chorinho são novidades recentes. “Eu só tinha noção de samba e bossa nova, que são mais conhecidos fora do Brasil. Agora também venho ouvindo algumas coisas do Clube da Esquina entre outros artistas da música popular”, conta.

Em março deste ano, ela participou do Carnaval na cidade que escolheu viver. Giselle foi para a rua tocando na bateria do bloco Unidos do Samba Queixinho. “Eu já havia passado o Carnaval duas vezes no Rio de Janeiro e aqui em Belo Horizonte foi a minha primeira vez. Fiquei muito impressionada porque não sabia que a festa aqui seria tão grande e é fascinante a maneira como a música faz parte do cotidiano dos brasileiros”, comenta a harpista.

Além da oportunidade dos estrangeiros se familiarizarem melhor com o cenário daqui, o paraense Moisés Pena,33, que integra a Filarmônica desde 2010, nota como para os brasileiros esse contato é relevante.

“O Brasil não possui essa facilidade de troca de informações em relação à musica erudita como acontece no exterior. Existe sim uma tradição de música sinfônica no país, mas se formos comparar com outros lugares ela é muito inferior. Por isso é importante uma experiência lá fora ou a convivência com quem vem de lá aqui”, opina Moisés Pena.

“Os músicos estrangeiros trazem esse background, enriquecendo as possibilidades sonoras com interpretações singulares. Não se diz que ninguém melhor do que os brasileiros para tocarem a nossa música? Pois, então, pode também haver vantagens culturais quando um russo toca uma composição do seu próprio país”, conclui Pena.

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