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"Magazine" entrevista a cantora, compositora e pianista Leila Pinheiro

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

Divulgação
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Renomada cantora e pianista, Leila Pinheiro foi descoberta no Festival dos Festivais, em 1985. Desde então, construiu uma sólida carreira e agora estreia o projeto Eu Canto Samba, em que interpreta canções de grandes nomes. Na conversa abaixo, ela fala da iniciativa, sobre a nova safra musical brasileira, o mercado da música e também de seus sonhos.

 

Primeiramente, gostaria que falasse de seu novo projeto Eu Canto Samba.

O samba para mim é como qualquer outro gênero musical e já tinha cantado e tocado em outros momentos. Mas é a primeira vez que faço um mergulho tão profundo, passeando por categorias diferentes dentro do estilo, como o samba-rock. Quem fomentou em mim essa ideia foram os cinco músicos que trabalham comigo. Eles são do Rio de Janeiro e têm uma vivência de berço do samba, que está no DNA. Daí unimos o conhecimento deles com minha formação para fazer montar o show. A experiência têm sido muito interessante, pois houve momentos em que achei que não daria certo, mas o resultado foi muito rico e temos belíssimas versões de músicas que representam uma história. No show, me apresento sozinha com violão para cantar João Gilberto e faço também um homenagem a Clara Nunes, que foi quem levou o samba do morro para o palco. É gostoso também porque vou passeando pelos instrumentos, toco até cavaquinho.

O que tem achado dessa experiência de tocar outros instrumentos em um show?

Eu já estudei muito violão, mas abandonei porque gosto mesmo de usar os 10 dedos para criar harmonia musical. Mas sinto prazer em tocar violão, por isso não é um esforço. Com o cavaquinho já tive mais dificuldade. Mas o maior problema que enfrento ao ficar mudando de instrumentos no é físico. Sair do violão para tocar piano é um desconforto porque fico em posições muito diferentes no palco. Mesmo assim, está nos meus planos voltar a estudar guitarra ainda este ano.

Em Belo Horizonte você se apresentou com Aline Calixto e Thiago Delegado. Como você conheceu o trabalho deles?

Quando eu parei para pensar quem seriam os convidados de BH para fazer o show eu logo lembrei deles. Além de estarem diretamente envolvidos com o samba, são jovens e talentosos. Juntar tudo isso foi muito bom, temos uma química boa.

O que você acha da nova safra de cantores e musicistas do Brasil?

Gosto muito do Dani Black. O que me chama atenção particularmente nele é que ele não é só um bom compositor, ele pega o violão e com ele faz belíssimas músicas. Certamente você vai ouvir falar muito dele ainda, porque ele é muito talentoso e, inclusive, já participou do “Som Brasil” (programa de televisão da Rede Globo em que artistas interpretavam grandes canções da música popular brasileira) prestando uma homenagem a Marina Lima. Tem também o Marcus Tardelli, que é um gênio do violão. Mas é um daqueles de verdade, pois hoje em dia essa palavra foi banalizada né? Temos uns 50 gênios de 22 anos por aí e as coisas não funcionam bem assim. Sou de uma geração em que os músicos precisavam de muito tempo para amadurecer e para isso praticavam muito, sendo eles já bons ou não. Claro que realmente existem pessoas novas e extremamente talentosas, mas é preciso tempo para saber quais deles, nesse mar de gênios, vão perdurar. Outro fator que alavanca ou interrompe a carreira de um jovem músico é se ele está ou não na TV e rádio. Atualmente é muito difícil ter espaço nos meios de grande abrangência, por isso é um momento ingrato para os novos talentos.

Fale um pouco mais sobre esse cenário.

Por exemplo, outro dia ouvi a seguinte frase: “Eu gosto tanto do João Bosco, pena que ele desistiu”. O homem está fazendo show pra caramba, mas suas canções não estão nem na novela ou nem no rádio de forma massiva. Se o músico não estiver dentro desse cenário, ele não existe. Essa situação é um perrengue danado e muitos desistem por causa disso.

Nesse caso, você acha que a internet ajuda para divulgar novos e até mesmo o trabalho de velhos artistas?

Acho a internet importantíssima para divulgar o trabalho de um músico nos dias hoje, pois alcança um grande número de pessoas. Mas os músicos querem um grande reconhecimento de seu trabalho e a internet, por mais que seja abrangente, atinge um determinado nicho. Há gerações que ainda não “estão” na internet. Por isso, é bom até certo ponto, mas é melhor tê-la do que não.

Você tornou-se muito conhecida por ter vencido o prêmio revelação do Festival dos Festivais em 1985. Acha que se os festivais existissem hoje ele ajudariam na divulgação do trabalho de novos músicos?

Não. Eu acho que a fórmula dos festivais é completamente furada. Depois do auge dos festivais, lembro que ainda aconteceu um em que a música “Tudo Bem Meu Bem”, não me lembro de quem era (A canção foi composta e interpretada por Ricardo Soares no Festival da Música Brasileira, em 2000), foi a vencedora. Não era uma boa música e todos sabiam, mas foi a vencedora mesmo assim. Isso só comprovou que os festivais estavam atrelados aos patrocinadores e o músico em si era um mero coadjuvante. Mas não havia internet naquela época com as possibilidades de hoje e, por isso, era um caminho necessário.

Falando um pouco de sua carreira. Você se considera versátil por interpretar artistas musicalmente tão diferentes?

Sou uma intérprete que toca e sempre experimentei uma liberdade para cantar o que eu quisesse. Mas sou muito criteriosa e nunca abusei dessa liberdade. Além disso, eu sempre imprimo minha marca nas músicas que interpreto. Para mim, isso é tudo muito natural e só me preocupo em não abrir demais, pois o público não gosta muito de novidades. Quando fiz o show com as músicas do Renato Russo, por exemplo, eu fiquei muito triste porque queria ter viajado mais com o espetáculo, mas só fiz shows em Brasília, Rio de Janeiro e Curitiba. Por isso, sei que não posso radicalizar demais e sair da espinha do meu trabalho, senão nem o público nem a mídia irão aceitar. Mas é importante dizer que não me descaracterizo e dentro da minha carreira eu já passei por diversos gêneros, já fui “musa da bossa nova” e gravei vários discos diferentes, mas tudo isso com minha identidade presente.

Atualmente qual é seu maior sonho profissional?

Sempre haverá muito a ser feito. Neste momento, penso muito levar meu trabalho para a Europa e para os EUA, pois acho que ele ainda não chegou nesses lugares com a força que poderia e que possui. Eu faço o tipo de música brasileira que eles gostam, então acho que essa possibilidade está adormecida. Porém, não digo que estou esperando, pois eu não espero, eu vou atrás do que acho que pode gerar algo bacana. Penso talvez em mudar primeiro para Paris, para fazer um parceira com o Nelson Faria. Vivendo lá é mais fácil produzir em um local e fazer shows em outros países ao mesmo tempo. Por outro lado, não sei se é o momento certo pois o mercado não está receptivo. Ivan Lins me contou que o Japão, um dos países que melhor recebe e compra músicas brasileiras, está em crise e os selos não estão lançando novos discos brasileiros no momento. Além disso, sempre estou pensando em fazer novas parcerias, principalmente com esse pessoal jovem. É uma troca muito rica.

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