“Dummy” completa 20 anos

O disco da banda inglesa Portishead, que já nasceu clássico, definiu um gênero célebre nos anos 90, o trip hop

iG Minas Gerais | Ludmila Azevedo |

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Poucos artistas conseguem a proeza de, na primeira faixa de seus álbuns de estreia, reunir elementos tão substanciais que ajudem a definir algo que vá além de um estilo. Os britânicos do Portishead estão nessa categoria, e ao apertar o play – era o auge do CD – os primeiros acordes de “Mysterons” ressaltavam o sombrio, o belo, a experimentação, o etéreo e a densidade de artistas que, se não “criaram”, contribuíram de maneira singular para o trip hop (ou downtempo, música de Bristol, de onde vem, além do Portishead, Tricky e Massive Attack).

Geoff Barrow, Beth Gibbons e Adrian Utley elaboraram 11 faixas que nasceram clássicas com “Dummy”. As faixas “Glory Box” (que entrou na trilha de “Beleza Roubada”, de Bernardo Bertolucci, e foi tema de uma campanha do Centro de Valorização da Vida, o CVV) e “Sour Times” viraram compactos e o trabalho ganhou o Mercury Prize, uma das premiações mais importantes do Reino Unido, derrotando o disco de estreia de um tal de Oasis.

Samplers. “Dummy” segue tão atual que DJs ressaltam que ainda o escutam como se fosse 1994. “Eu amava e amo até hoje. É justamente o oposto do que eu toco na pista, no caso house, disco e tech house. Descobri o gênero e o disco. Isso acabou virando minha hora de folga. É uma música intrigante, não é feliz. É eletrônica, mas também é acústica”, explica o DJ Robinho, idealizador da Twice as Nice, que volta à cidade em maio.

“O disco é um marco de uma época que não se tinha que pagar tão caro pelos direitos autorais. Ele tem samplers de Isaac Hayes, hoje impossíveis de se conseguir. Ele é todo clássico, cheio de hits e muito atual. O ‘Dummy’ causou tanto impacto que os posteriores que nem são ruins soam inferiores”, avalia o DJ Fausto, da Funk-se.

Não é exagero afirmar que “Dummy” se mantém também como objeto de estudo. “Eu pesquiso muita música velha, vou atrás sem olhar a data mesmo e agora você diz que esse disco tem só 20 anos? Ah, é um adolescente”, brinca Robinho, que por causa de artistas como o Portishead, na época da extinta loja Motor Music, descobriu nomes bacanas do trip hop como o Stero.

“A banda faz essa mistura de soul, funk, utilizando na bateria uma batida desacelerada de James Brown. Com certeza, o gênero conquistou no Brasil muitos adeptos. Existem artistas que se inspiram no trip hop, como o 3 na Massa e Céu, por mais que pareça que o gênero tenha ficado meio perdido no espaço”, avalia Fausto. Ele, inclusive, dá uma dica de para os fãs de Portishead: o DJ Andy Smith, que passou a integrar o trio de Bristol, estará no país no próximo mês.

Se entre os adeptos e nem tão entusiastas de música eletrônica, “Dummy” provoca, em geral, uma ótima primeira impressão, existiu uma quase exceção à regra. Jefferson Santos, que esteve à frente da Motor, além de atuar como DJ foi o criador de um fanzine, “Kaspar”, cuja projeção rendeu convites para escrever críticas em revistas de circulação nacional, entre elas a “Bizz”, a “Rock Press” e a “Panacea”.

“Me lembro que uma das pautas para a ‘Panacea’ era a resenha do ‘Dummy’. Ouvi o disco rápido, sem prestar atenção, e não bateu. Achei lento demais, manhoso demais, com os samplers do Isaac Hayes muito explícitos. O que eu ouvia de música eletrônica naquela época era Young Gods e Einsturzende Neubauten, muito mais radicais. Enfim, achei o disco chato e não entendi porque todo mundo estava amando aquilo. E escrevi a resenha pra revista falando mal, muito mal do disco”, lembra.

Intrigado com o disco, Jefferson decidiu dar uma segunda chance para o Portishead. “E quanto mais eu ouvia o disco, mas eu gostava. E fui descobrindo e gostando de outros nomes do trip hop, sobretudo Massive Attack (que lançou ‘Protection’ no mesmo ano) e Tricky. Hoje, ‘Dummy’ entra fácil em duas de minhas listas pessoais: a de melhores discos de todos os tempos e a de textos que não deveria ter escrito”, conta, rindo.

O mais surpreendente é que mesmo com toda a projeção do álbum, o Portishead sempre fez questão de manter uma aura alternativa. Claro que o trio aproveitou a ocasião para consolidar trabalhos que demandavam investimentos maiores, como o sofisticado “Roseland NYC Live”, de 1998, ao lado de uma orquestra de 30 músicos.

Depois de “Dummy” e antes do registro em Nova York, o trio lançou “Portishead” e se dedicou a projetos paralelos, como o belo trabalho de Beth Gibbons com Rustin Man, que esteve na trilha de “Bonecas Russas”, de Cédric Klapisch.

Em 2008, sem muito alarde, a banda divulgou “Third”. A faixa de abertura, “Silence”, traz em bom português a frase: “Esteja alerta para a regra dos três. O que você dá retornará para você. Essa lição você tem que aprender. Você só ganha o que você merece”. Foi gravada pelo brasiliense Claudio Campos, que dá aula de capoeira em Londres e que reza a lenda nunca ouviu falar do Portishead.

Recentemente, a banda avessa a turnês, anunciou participação em alguns festivais, como o Les Nuits de Fourvière e o Beauregard Festival, ambos em julho, na França. Com uma discografia tão compacta, os fãs podem ter a sorte de uma predominância do repertório de “Dummy” nesses shows. Contudo, e como tudo que cerca o Portishead, esse setlist dos sonhos não seria arquitetado. Afinal, não é muito a cara do grupo usar a efeméride dos 20 anos deste clássico para ganhar um troco a mais.

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