R10 poderia ser cem, mil, 1 milhão

iG Minas Gerais |

Ninguém é eleito o melhor jogador do mundo por duas vezes, se não for, realmente, muito bom. Esse é caso de Ronaldinho Gaúcho, que, no Barcelona, teve lampejos de Pelé e encantou o mundo quando passou pela Espanha, ganhando seu principal título como atleta de clube, a então Uefa Champions League, hoje a Liga dos Campeões da Europa, na temporada 2005/2006. Quem via Ronaldinho jogando naquela época imaginava que ele se tornaria, fácil, um dos dez, cinco, três maiores jogadores de todos os tempos, o que acabou não acontecendo por uma série de fatores. O principal deles é a falta de foco na carreira de atleta profissional, que requer dedicação exclusiva a uma atividade que exige muito do corpo. As últimas incursões de R10 pelo mundo da “música” deixam claro que, hoje em dia, muito mais rico do que há dez anos, o futebol não é a única coisa que motiva o jogador, que tinha tudo para ficar eternizado no panteão dos intocáveis. Sem discutir a qualidade musical das “obras” gravadas por Ronaldinho, muito menos se ele está certo ou errado em se aventurar por esse caminho, o que é de se lamentar é a falta de preparo e de discernimento dele ao entoar frases incentivando o consumo exagerado de bebidas alcoólicas e o fato de poder fazer isso por estar “cheio de dinheiro”. Se ele é maior de idade, tem dinheiro para comprar quanta bebida quiser e não sai dirigindo embriagado, ninguém tem nada a ver com isso. Só fico imaginando os pais de uma garota ou um garoto atleticanos que viveram em 2013 a maior alegria de sua vida futebolística ouvindo essa música do ídolo de seu filho ou filha, uma ode a ingestão descontrolada de uma droga, o álcool, que acaba com a vida de muita gente. E aí não vai nenhum puritanismo. Também gosto de tomar minha cervejinha, mas não sou atleta, nem tenho milhares de garotos que se espelham em mim. Penso também nos patrocinadores do Atlético e do próprio R10. Tem ainda o Maurício de Sousa, com sua obra mundialmente reconhecida. O criador da Mônica, da Magali, do Cascão, do Pelezinho, fez uma parceria com o jogador há alguns anos para editar uma revistinha do Ronaldinho, que não sei se ainda circula. Ronaldinho foi 49, hoje é 10, mas corre o risco de acrescentar outro número ao currículo, o 51. Até acredito que ao entrar nessas aventuras, Ronaldinho, que é um bom rapaz e nunca se envolveu em confusões sérias, não o faça por mal. O faz por falta de assessoria, por ausência de uma base educacional sólida ou por, simplesmente, se “contentar” em ser milionário. O que ele não percebe, ou percebe e não liga – o que é um direito dele –, é que perdeu e vem perdendo a chance de ficar na história como unanimidade, ídolo máximo de uma torcida, como Roberto Dinamite no Vasco – o Roberto jogador –, Zico no Flamengo, Sócrates no Corinthians, Falcão no Inter, Ademir da Guia no Palmeiras, Rogério Ceni no São Paulo, Tostão no Cruzeiro e Reinaldo no Atlético, embora muita gente ache que o título da Libertadores faz de R10 o maior de todos os tempos no Galo, opinião que respeito, entendo os motivos, mas não concordo, por razões óbvias. Mesmo na seleção, R10 nunca teve o brilho que poderia ter. Ao contrário, em alguns momentos chegou a ser irritantemente descompromissado. Mesmo no título mundial de 2002, quando foi muito bem no jogo das quartas de final, contra a Inglaterra, foi coadjuvante, até porque era muito jovem e o time tinha Rivaldo e Ronaldo voando.

Devendo. Mesmo se Ronaldinho estivesse arrebentando no Galo, a análise acima caberia, já que trata muito mais da imagem de um ídolo do que de seu desempenho esportivo. Mas o jogador não vem atuando bem – para os padrões dele – desde o segundo jogo das oitavas de final da Libertadores do ano passado, nos 4 a 1 sobre o São Paulo. Isso sem falar no vexame, que foi geral, no Mundial de Clubes.

Chance de ouro. O futebol tem o poder de erguer e derrubar muito fácil. O mata-mata da Libertadores está chegando. Ronaldinho pode arrebentar e levar o Galo, que vai passar para as oitavas de final, ao bicampeonato e, quem sabe, a ganhar o título do Mundial de Clubes da Fifa, apagando a péssima impressão deixada na temporada passada. Se isso acontecer, não haverá “música” que o desabone. 

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