Os 50 anos do golpe militar

iG Minas Gerais |

Fiz 13 anos no dia em que os militares derrubaram o presidente João Goulart. Entrava na adolescência, e o Brasil mergulhava numa ditadura, dois momentos inconciliáveis. A idade me levava às descobertas. O novo regime escondia e cerceava. Em 1967, como muitos jovens naquela ocasião, entrei para a militância estudantil. Morava em Belo Horizonte e era aluno do Colégio Estadual. Pertencia à Colina, uma organização política clandestina. Já em 1969, meses após o decreto que instituiu o Ato Institucional nº 5, a polícia política prendeu vários integrantes do nosso grupo. Consegui escapar, mas tive que passar à clandestinidade. Nesse período, estive no Rio e em Porto Alegre, onde acabei sendo preso. Cumpri a maior da parte da pena em Juiz de Fora, para onde fui transferido. Os anos em que estive preso foram os mais duros da ditadura militar, os chamados “anos de chumbo”. O AI-5 extinguira os direitos civis, e a tortura, os assassinatos e os desaparecimentos eram prática cotidiana da repressão política. A ação política era arriscada e tensa. Não era permitido contrariar o regime, criticar, protestar. Mas, mesmo correndo riscos, boa parte da juventude brasileira fez a opção pelo enfrentamento da ditadura. Na próxima segunda-feira, o golpe militar completa 50 anos. Não há razão para festa, ainda que o Brasil tenha superado aqueles tempos sombrios, ainda que tenhamos avançado tanto. Mas há, sim, razões para lembrar e refletir. No mínimo, para manter as novas gerações informadas e evitar que a exceção se repita. Nas últimas semanas, muito tem sido dito sobre a ditadura militar. Historiadores, professores, cientistas políticos, jornalistas têm relembrado os horrores daquele período. As Comissões da Verdade têm impulsionado esse debate, trazendo revelações sobre episódios que se mantinham escondidos até agora. Esconder, como já disse, era a regra. Pois que seja jogada cada vez mais luz sobre esse período tão sombrio da nossa história, sem ressentimento ou revanchismo. Que a sociedade conheça a própria história em detalhes, para não deixar que o arbítrio se repita. Há quem peça pela volta dos militares ao poder, um desejo totalmente descabido num país que vive uma democracia consolidada, com instituições vigorosas. A prova é o direito dado a essas pessoas de se manifestar contra num país onde o Congresso Nacional, as assembleias estaduais e as Câmaras Municipais funcionam plenamente. Onde a Justiça faz valer a Constituição, a imprensa é livre e prefeitos, governadores e a presidente da República são eleitos legitimamente, pelo voto direto, sob regras constantes. O Brasil superou o autoritarismo, tornou-se uma das maiores democracias do mundo, vem construindo instituições saudáveis, e esse avanço deve ser permanente. Hoje podemos proclamar serena, mas firmemente, num coro de milhões de vozes: ditadura nunca mais!

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