Técnica faz com que bebês tenham duas mães e um pai

Alterações celulares fizeram com que pesquisador fosse alvo de críticas

iG Minas Gerais | Sabrina Tavernise |

Idealizador. Shoukhrat Mitalipov, nascido na ex-União Soviética, é pesquisador nos Estados Unidos
Leah Nash / The New York Times
Idealizador. Shoukhrat Mitalipov, nascido na ex-União Soviética, é pesquisador nos Estados Unidos

BEAVERTON, EUA. Para a maioria das pessoas, a palavra “mitocôndria” é uma lembrança distante, a resposta de uma prova feita há muitos anos durante as aulas de biologia do ensino médio. Porém, para Shoukhrat Mitalipov, o poder misterioso dos produtores que habitam todas as células humanas é uma obsessão que já dura a vida toda. “Meus colegas costumam dizer que eu sou ‘mitocondríaco’”, afirmou em seu escritório modesto na Universidade de Saúde e Ciências de Oregon, nos Estados Unidos. “Talvez eles tenham razão”.

Mitalipov, 52, abalou o campo da genética: remover o núcleo de um óvulo humano e colocá-lo dentro de outro. Ao fazer isso, o cientista nascido na ex-União Soviética atraiu a ira dos bioeticistas e o escrutínio dos reguladores.

O procedimento tem o objetivo de ajudar mulheres a conceberem crianças sem transmitirem os defeitos genéticos de suas mitocôndrias celulares. Essas mutações são raras, mas podem causar problemas graves, incluindo danos neurológicos, falência cardíaca e cegueira. Cerca de um a cada 4.000 bebês nos EUA nascem com alguma doença mitocondrial hereditária; não existe tratamento e poucos chegam à idade adulta.

As mitocôndrias possuem o próprio conjunto de genes, herdado exclusivamente das mães. O procedimento de Mitalipov permitiria que essas mulheres tivessem filhos ao colocar o núcleo do óvulo da mãe no óvulo de uma doadora, que tivesse seu núcleo removido. A mitocôndria defeituosa, que fica fora do núcleo, no citoplasma celular, seria deixada para trás.

“É um grande avanço. Ele é uma pessoa extremamente talentosa”, afirmou Douglas C. Wallace, professor da Universidade da Pensilvânia.

Entretanto, o bebê resultante poderia carregar o material genético de três pais – a mãe, a doadora do óvulo e o pai – um resultado que deixou os eticistas insatisfeitos.

Algumas pessoas disseram às autoridades que a nova técnica poderia introduzir novas mutações genéticas ao pool de genes da humanidade. Outros alertaram para o fato de que a técnica poderia ser usada mais adiante para procedimentos eticamente obscuros – talvez, afirmou Marcy Darnovsky, diretora executiva do Centro para a Genética e a Sociedade, “para realizar a engenharia genética de crianças com determinadas características físicas”.

Mitalipov afirmou que esses temores não têm fundamento. O DNA mitocondrial é composto por apenas 37 genes, que coordenam a produção de enzimas e moléculas de que a célula precisa para gerar energia, destacou. Elas não têm qualquer relação com características físicas como a cor do olho e do cabelo, que estão codificadas no núcleo celular.

“Sempre haverá gente tentando bagunçar as coisas”, disse Mitalipov, cidadão norte-americano que cresceu no atual Cazaquistão. “Muitas pessoas construíram suas carreiras me criticando”.

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