Colírio refrescante de pimenta

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“Arte serve para buscar nas pessoas aquilo que nem elas próprias sabiam que guardavam”
Barbara Dutra/House of Photo
“Arte serve para buscar nas pessoas aquilo que nem elas próprias sabiam que guardavam”

Nosso entrevistado de hoje é um homem de pedras e bovinos. Mentira, isso é “apenas” o ramo de Romero Pimenta. O que traz o homem até aqui tem nada a ver, é outra coisa: arte. Desde que o conhecemos – e bota tempo nisso – as artes plásticas sempre foram sua paixão e filosofia de vida. A seguir, a prova.

 

Romero, primeiro, qual tua profissão?

Empresário do setor de pedras semipreciosas e pecuária.

 

Mas o motivo desta entrevista é arte contemporânea, da qual você é um entusiasta. Fale-nos desta paixão.

Arte, de um modo geral, entusiasma qualquer pessoa que dela se aproxime. Eu comecei a me interessar por artes plásticas desde os 17 anos, quando estudei em Londres e comecei a conhecer os museus. Arte contemporânea é somente uma consequência natural de quem acompanha o mundo das artes. É mais interessante você curtir a produção do seu tempo. Perseguir o processo criativo do artista que vive a mesma realidade que você. Eu gosto muito de trabalhos realizados em tempos passados, mas me identifico mais com o que vejo ser feito agora.

 

E sobre Inimá de Paula, o que teria a dizer?

Inimá foi um grande artista modernista, que trabalhou com pleno vigor criativo até as vésperas de sua morte. Um homem simples dotado de grande talento. Um artista exemplar. Sensível a todas as manifestações artísticas, mas, sobretudo, um artista que soube como poucos, ser honesto e coerente com seu trabalho, até o fim da vida.

 

E a Fundação Inimá de Paula? Você ainda é "sócio" deste restrito clube?

A Fundação Inimá de Paula foi criada por mim e mais dois amigos que, com o próprio Inimá, representa um dos maiores feitos da arte brasileira, sem nenhum auxílio de verbas públicas. Catalogamos quase a integridade da obra do artista, além de preservarmos a sua memória. Ainda faço parte do grupo de pessoas que ajudam a manter a Fundação, bem como do conselho da mesma. Infelizmente, ainda somos poucos, pois a filantropia artística, no Brasil, não é uma coisa muito bem difundida. Gostaríamos de envolver mais pessoas nesse processo, mas não é uma tarefa fácil. Hoje, o Museu Inimá é uma instituição referência no Brasil e promove um trabalho com crianças que só poderia ser comparado a museus americanos e europeus. 

 

Que outros artistas te seduzem?

São muitos. Sempre fico seduzido por uma obra que me faz pensar. Pra mim, arte de qualidade é aquela que te induz a refletir sobre você mesmo e seu mundo. Não precisa ser belo, mas precisa ter uma comunicação com o ser humano. Sempre estou encontrando, pelo mundo, artistas que me encantam, mas poderia dizer que sou um apreciador apaixonado pela arte da Rivane Neuenschwander. Ela é uma artista mineira, radicada em Londres e dotada de uma excepcional capacidade de questionar o cotidiano através de seu trabalho. Outro artista que sempre me faz parar diante de um trabalho seu é o Luiz Zerbine. Esse talvez seja o maior pintor vivo do Brasil.

 

Como vê o mercado de arte?

Acho que arte e mercado de arte são duas coisas muito diferentes que se entrelaçam. Quem acha que vai comprar uma obra de arte e depois de um tempo irá ganhar dinheiro, está equivocado. O valor de uma obra de arte é muito subjetivo. O melhor seria comprar uma peça que te encanta. Que te faça ser mais sensível e com a qual você irá conviver por muito tempo. Se valorizar, será muito bom, mas não pode ser esse o intuito primeiro, quando se compra arte.

 

O mundo, finalmente, descobriu a arte brasileira?

Acho que está descobrindo aos poucos. Os artistas brasileiros já são muito respeitados e reconhecidos por curadores de museus e colecionadores mais investigativos. Mas a arte brasileira ainda é muito pouco conhecida pelas pessoas comuns. Até mesmo no Brasil. Podemos dizer que poucos artistas, alvos de muita mídia, são conhecidos pelos brasileiros. A grande maioria ainda passa despercebida quando suas obras são apresentadas em público.

 

Arte serve para o quê? 

Arte serve para evoluir, conhecer, refletir, questionar, intrigar. Arte serve para buscar nas pessoas aquilo que nem elas próprias sabiam que guardavam.

 

Arte também é investimento. O que você recomendaria aos interessados?

Recomendo, sempre que me perguntam; não comprar arte para investir. Melhor investir naquilo que você conhece muito e é capaz de fazer crescer o seu dinheiro. Depois, com o dinheiro disponível, compre uma bela obra de arte e leve pra casa.

 

E você? "Comete" algum tipo de arte?

Viver é uma arte, sempre. Cada dia é uma obra de arte em nossas vidas. Como sempre, temos que saber que nem todas são de qualidade. Alguns dias poderiam ser descartados.

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