Lucía Puenzo na Flip 2014

Cineasta argentina vem para a Festa Literária de Paraty para lançar “Wakolda”, o seu mais recente romance

iG Minas Gerais |

Obra. Trabalho de Lucía Puenzo tem forte caráter político, com referências a nazistas na Argentina
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Obra. Trabalho de Lucía Puenzo tem forte caráter político, com referências a nazistas na Argentina

São Paulo. Quando o temido oficial nazista Adolf Eichmann foi preso na Argentina, em 1960, após viver uma década escondido no país, Lucía Puenzo, 39, ainda não havia nascido. “O fato de termos acobertado aqueles criminosos assombrou minha infância e me fez pensar nos ecos que isso tinha em diferentes períodos da história argentina, como na ditadura dos anos 70, quando eu cresci”, diz a cineasta e escritora, que virá para a próxima Festa Literária de Paraty (Flip), em julho.

Em razão de um diabólico acordo entre o governo do general Juan Domingo Perón (1895-1974), a Igreja e a cúpula nazista, a Argentina foi refúgio para mais de 300 oficiais nazistas após a derrota da Alemanha na Segunda Guerra Mundial (1945). A trajetória de um deles chamou mais a atenção de Puenzo. O médico Josef Mengele (1911-1979), o “Anjo da Morte”, responsável por levar a cabo inúmeras experiências genéticas usando os prisioneiros do complexo Auschwitz-Birkenau. “Uma das coisas que mais me intriga sobre o nazismo é como essa ideologia conquistou tantos médicos. Posso entender como contaminou outros oficiais, mas os médicos estudam para salvar vidas. E, de repente, durante a guerra, havia tantos como Mengele, fazendo mal às pessoas e operando aparatos mortais”, diz Puenzo.

Médico alemão, Mengele é a inspiração para o protagonista de seu mais recente romance, “Wakolda” (ed. Emecé), que será lançado na Flip, e do filme “O Médico Alemão”, que está previsto para estrear aqui na semana que vem. De maneira ficcionalizada, Puenzo reconstrói uma possível passagem de Mengele pela Patagônia, antes de ele instalar-se no Brasil, onde morreria afogado numa praia de Bertioga, em 1979. Na história de Puenzo, Mengele conhece uma família argentina que o acolhe ao instalar-se numa hospedaria em Bariloche. A filha do casal tem problemas de crescimento e isso fascina o médico, que passa a oferecer-lhe tratamento.

Tanto a menina como sua mãe, grávida de gêmeos, sentem-se atraídas pelo estrangeiro. “Há uma tensão sexual todo o tempo, mas atravessada pelo que nós, espectadores, sabemos que há por trás do personagem”, diz Puenzo. Dessa maneira, a cineasta retoma sua atração pela perversão e o mistério dos corpos humanos, presente em outras produções. Em “XXY”, de 2007, a cineasta explorava a relação de um rapaz com uma menina hermafrodita. “Sempre me interessa esse lado psicológico, humano e incômodo das relações. Creio que os momentos históricos ficam mais palpáveis se você os conta a partir dos desejos e sentimentos das pessoas”.

Oscar. Lucía é filha de Luis Puenzo, diretor de “A História Oficial” (1985), o primeiro dos dois Oscars de filme estrangeiro ganhos pela Argentina. “Há um paralelo óbvio. Meu pai também se interessa pelo que está por trás dos acontecimentos políticos. Em ‘História’ era o caso da mãe que descobre que sua filha era um bebê roubado pela ditadura”, conta.

Recentemente, os Puenzo produziram também “Infância Clandestina”, filme sobre a luta armada dos anos 70 contada por meio do olhar de um menino. “O Médico Alemão” foi exibido no Festival de Cannes, e escolhido pela academia argentina para representar o país no Oscar.

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