Obra de Ana Miranda traz o universo de José Alencar

“Semíramis” se passa no século XIX e tem narrativa híbrida a partir da história de duas irmãs

iG Minas Gerais |

Narrativa de Ana Miranda se passa entre a cearense Crato e o Rio
cia. das letrasdivulgação
Narrativa de Ana Miranda se passa entre a cearense Crato e o Rio

SÃO PAULO. Em “Semíramis”, de Ana Miranda, a vida de José de Alencar é narrada por Iriana, irmã da personagem que dá título ao livro. Moradoras da cidade do Crato, no Ceará, filhas de republicanos, elas perdem os pais durante a Insurreição de Pinto Madeira, reação monarquista à Revolução Pernambucana de 1817 e à Confederação do Equador (1824), das quais participaram Bárbara de Alencar e seu filho José Martiniano, avó e pai do romancista. 

As irmãs conhecem destinos diferentes: Semíramis, volúvel e sedutora, casa com Calixto, rico político da corte, e muda-se para o Rio de Janeiro. Iriana permanece no Crato, presa aos avós, submetida a um casamento indesejado que, no entanto, dura apenas algumas horas, pois o noivo suicida-se. Viúva virgem, cabe a ela narrar os acontecimentos que marcam sua vida, a de Semíramis e, graças principalmente às cartas da irmã, a do autor de “Iracema”.

Mitomania. O interesse pelo romancista surge de modo fortuito: a narradora encontra-se na propriedade da família Alencar, acompanhando o avô, correligionário de José Martiniano, no momento em que o escritor nasce. Induzida por uma brincadeira da irmã, Iriana acredita que seu destino está preso ao da criança.

Ludibriar é, de fato, a principal característica de Semíramis. Mitomaníaca, ela manipula as pessoas, cria histórias mirabolantes, incluindo um caso amoroso com Alencar, quando este, afamado, divide a opinião de literatos e políticos. A narradora, contudo, é limitada. Além dos horizontes estreitos e da insegurança, o relato poucas vezes nasce do seu testemunho, mas depende do que ela ouve dos políticos locais, do que o vigário insinua, das notícias improváveis que sua irmã lhe envia. Basear-se no discurso de terceiros cria uma narrativa inconsistente, sinuosa – na qual Iriana precisa dar justificativas sobre como tomou conhecimento dos fatos – e híbrida, que não é romance histórico ou biografia romanceada, mas resvala nesses gêneros sem se definir.

Somem-se os açucarados lugares-comuns, a assimilação do estilo alencariano, os maçantes elogios ao escritor, a discutível defesa do adjetivo como “transcendência do pensamento”, e temos a estrutura de uma crônica em que as vidas de Semíramis e Iriana servem como frágil biombo para encobrir um único objetivo: enaltecer Alencar.

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O QUÊ. “Semíramis”, de Ana Miranda, editora Companhia das Letras (272 págs., R$ 39,50)

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