Mundo da arte faz sua aposta

Cortejado por negociadores e curadores, o colombiano Oscar Murilo está sendo chamado de “o Basquiat do século 21”

iG Minas Gerais | Carol Vogel |

Ateliê. Oscar Murillo em seu estúdio no leste de Londres
Andrew Testa/The New York Times
Ateliê. Oscar Murillo em seu estúdio no leste de Londres

LONDRES, INGLATERRA. Diante de uma multidão que aguardava de pé na Christie’s aqui em fevereiro, foram abertos os lances do leilão de uma pintura abstrata cheia de traçados pretos e “Burrito” escrito na parte superior em amarelo brilhante. O leiloeiro anunciou que havia 17 compradores por telefone e ausentes disputando a tela, feita há três anos por Oscar Murillo, que acaba de completar 28 anos.

Embora Murillo seja pouco conhecido fora dos círculos da arte contemporânea, e apesar de haver aqueles que são céticos em relação a sua obra, seus fãs já o chamaram de “o Basquiat do século 21”. Naquela noite, depois de uma disputa feroz, “Sem Título (Burrito)” foi vendido por US$ 322.870, seis vezes mais dos US$ 49 mil que estava sendo estimado. Há apenas dois anos, Murillo, que nasceu na Colômbia, acordava às 5h da manhã para limpar prédios de escritórios e bancar seus estudos no Royal College of Art em Londres. Agora, ele é representado pela David Zwirner, uma das galerias mais prestigiadas do mundo, e quando uma de suas telas é selecionada para um leilão ou vendida para um comprador particular, seu valor pode chegar a mais de US$ 400 mil.

A história de como um jovem artista como Murillo, antes um estudante em dificuldades, se transformou em uma estrela da arte – cortejada por negociadores de alto nível, inundada por solicitações de curadores que tentam conseguir uma obra sua para uma exposição em um museu ou uma bienal – reflete a maneira como o investimento na arte contemporânea se tornou um grande jogo, assim como o mercado de ações e o setor imobiliário. Um número cada vez maior de colecionadores que apostam em futuras estrelas tem investido em obras de artistas em ascensão, como Lucien Smith, Jacob Kassay, Sterling Ruby ou Murillo, transformando o colecionismo em um esporte competitivo.

Em uma passagem recente por Nova York, Murillo, sentado no escritório de uma das galerias David Zwirner, em Chelsea, falou sobre os planos para sua primeira exposição no local, uma mistura ambiciosa de performance e instalação que será aberta em 24 de abril. Vestindo uma calça jeans desalinhada, uma camiseta e um boné de beisebol preto, o artista, geralmente descontraído, ficou um tanto irritado ao responder como se sentia sendo tão badalado, sabendo da volubilidade do mundo da arte. “Eu não gosto de pensar nisso”, respondeu ele.

“Este é um mercado faminto por quem mostra que tem potencial para emplacar no futuro”, diz Allan Schwartzman, consultor de arte de Manhattan. “Mas quase todos os artistas que chamam muita atenção no início da carreira estão destinados ao fracasso. O brilho se torna tão forte que dificulta a evolução deles”.

Como seus pais, que trabalham como limpadores e se mudaram para Londres vindos de La Paila, uma pequena cidade da Colômbia, quando Murillo tinha 10 anos, ele é um trabalhador incansável, e seu charme tranquilo e ambição implacável ajudaram a aumentar a sua popularidade. Mesmo quando Murillo era estudante, os colecionadores e seus amigos já estavam tão convencidos de que ele faria sucesso no futuro que chegaram a pagar US$ 2 mil por um quadro em algumas ocasiões. Morando no leste de Londres, que tem uma cena artística vibrante, ele muitas vezes trabalhou montando exposições em pequenas galerias do bairro e conheceu figuras importantes, como Rodolphe von Hofmannsthal, anos antes de o negociante se juntar a David Zwirner.

A rápida ascensão de Murillo nos Estados Unidos teve início em março de 2012, quando Donald e Mera Rubell, colecionadores experientes de Miami, viram uma série de quadros seus elaborada para o negociante Stuart Shave, de Londres, que foi exposta na Feira de Arte Independente de Nova York, um evento popular para a descoberta de talentos.

Donald e Mera Rubell, que compraram obras de artistas como Richard Prince, Maurizio Cattelan, Mike Kelley, Keith Haring e Basquiat no início de suas carreiras, se reuniram com Murillo em um estúdio no Hunter College, onde ele teve uma residência. “Chegamos às 9h da manhã, e ele veio desgrenhado, exausto, parecendo um sem-teto”, lembrou Mera Rubell. “Ele tinha ficado 36 horas sem dormir e feito sete ou oito quadros, para que tivesse algo a nos mostrar. Ele nos surpreendeu. Acabamos passando quatro horas conversando com ele”.

O casal não apenas comprou todo o trabalho, mas também convidou Murillo para a sua casa e para sua Fundação de Arte Contemporânea de Miami, onde o colombiano ficou por seis semanas e criou uma série de telas em grande escala.

“A última vez em que vi esse tipo de energia foi em Keith Haring e Jean-Michel Basquiat”, disse Mera Rubell. “Era muito intenso. Eu nem acho que ele estava drogado”. (Murillo garantiu a um repórter que estava “lúcido e sóbrio”).

Em dezembro de 2012, o casal Rubell expôs as telas na sua fundação, em um evento programado para acontecer junto com a Art Basel Miami Beach, a imperdível feira de arte contemporânea que atrai colecionadores, curadores e diretores de museus de todo o mundo.

Mera Rubell não ficou surpresa com o sucesso que veio em seguida. “Todo mundo copia todo mundo”, disse ela. “É algo que está no ar”. As telas de Murillo também refletem o que está na moda na arte contemporânea: são abstratas, costumam incorporar uma palavra em sua composição e contêm uma paleta de cores cheia de vida.

“Ver o trabalho do Murillo na fundação do casal Rubell deu confiança aos colecionadores”, disse Benjamin Godsill, ex-curador do New Museum em Nova York, que atualmente trabalha como especialista em arte contemporânea da casa de leilões Phillips.

“Hoje as pessoas reconhecem os quadros dele”, acrescentou Godsill. “Eles se tornaram um símbolo de status”.

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