Frei Betto fala sobre a sua participação contra o regime militar

Preso duas vezes, Carlos Alberto Libânio Christo, 70, escreveu sua experiência no período negro da Ditadura em livros como Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira (Rocco), O que a vida me ensinou (Saraiva), Cartas da Prisão (Agir), e Batismo de Sangue (Rocco); mineiro de Belo Horizonte, atualmente mora em São Paulo, no convento dos dominicanos do bairro das Perdizes

iG Minas Gerais |

Frei Betto foi um dos freis que participaram da resistência contra ditadura militar
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Frei Betto foi um dos freis que participaram da resistência contra ditadura militar

O TEMPO: No período em que ficou preso, durante o regime militar, o senhor foi torturado? Como foi presenciar e ouvir relatos de torturas a seus companheiros?

FREI BETTO: Fui torturado fisicamente na primeira prisão, em junho de 1964. Na segunda, em novembro de 1969, livrei-me da tortura física graças à intervenção do general Campos Christo, irmão de meu pai. Porém, assisti a torturas de outros presos e sofri torturas psicológicas.

OT: Onde o senhor ficou preso?

FB: Em várias prisões. Em novembro de 1969, no DOPS de Porto Alegre. Em dezembro do mesmo ano, no DEOPS e no Presídio Tiradentes, em São Paulo. Em 1970, no Presídio Tiradentes. Em 1971, passei pelo quartel Tobias de Aguiar, da ROTA de SP, e pelo Comando da PM. Fui em seguida transferido para o meio de presos comuns: estive na Penitenciária do Estado e no Carandiru, em São Paulo, e fiquei até ser solto na Penitenciária de Presidente Venceslau (SP).

OT: O filme "Batismo de Sangue" é baseado em um livro seu. Ficou satisfeito com a adaptação?

FB: O filme é excelente! Helvécio Ratton foi muito fiel ao livro. Fiz questão de não interferir no roteiro e nas filmagens. Tudo foi muito bem retratado. É o mais realista dos filmes brasileiros sobre a ditadura militar.

OT: Como você entendeu o suicídio do Frei Tito? O Fleury era mesmo daquela forma como foi retratado no cinema? Cruel, sádico e assustador? O que a presença dele (e de outros ditadores e torturadores) causavam aos freis?

FB: Conheci o Fleury quando esteve no DOPS de Porto Alegre para me interrogar. Foi ele que, por descuido, deixou escapar que eu não seria torturado fisicamente. Ao entrar na sala do delegado Firmino, diretor do DOPS, indagou se já me tinham dado “uns tabefes”. E antes que o delegado respondesse, acrescentou: “Cuidado, ele tem costas quentes.”

O suicídio de frei Tito, aos 28 anos, me abalou muito. Do grupo de frades preso pela ditadura, ele foi o mais torturado. Jamais falou. Um dos torturadores disse: “Não vai falar, mas jamais esquecerá o preço de seu silêncio”. De fato, Tito ficou psicologicamente desequilibrado. E pôs fim à vida após sair da prisão graças ao sequestro do embaixador suiço. Foi em agosto de 1974. Faz 40 anos agora. Em 8 e 9 de agosto faremos uma grande comemoração em nosso convento das Perdizes, em São Paulo. De fato, Tito não cometeu suicídio. Como disse Dom Paulo Evaristo Arns ao receber o corpo dele em São Paulo, em 1983, “frei Tito buscou do outro lado da vida a unidade perdida deste lado”.

OT: Você se considera um comunista? Se considerava, naquela época? Como era, na época, ser um comunista, enquanto para o senso comum, os comunistas eram ateus ou anticristãos, e você era da Igreja Católica? Como o "esquerdismo" chegou ao convento?

FB: Todo verdadeiro cristão é um comunista sem o saber; todo verdadeiro comunista é um cristão sem o crer. Sou socialista em decorrência de minha fé cristã. Todo cristão é discípulo de um prisioneiro político: Jesus de Nazaré, condenado por dois poderes políticos. As mesmas convicções que tinha nos anos 60 tenho ainda hoje, graças a Deus. A diferença são os meios. Como já não temos uma ditadura repressiva, não vejo razão para a violência revolucionária.

Como você diz, “o esquerdismo chegou ao convento” por uma longa história. Os dominicanos brasileiros são filhos de dominicanos franceses e italianos que lutaram junto com os comunistas contra os nazistas na Europa, durante a Segunda Guerra. A Ação Católica, na qual ingressei em 1959, tinha uma linha de esquerda. A Juventude Estudantil Católica (JEC) de BH, da qual fui militante e dirigente, fazia aliança com os comunistas para derrubar os pelegos direitistas que comandavam as entidades estudantis.

OT: A fé, de alguma forma, foi um alento para você sobreviver àquele período, à repressão, à prisão?

FB: Um incomensurável alento. O contrário do medo não é a coragem, é a fé. A prisão foi, para mim, um longo retiro espiritual.

OT: Você sente que você e os outros freis conseguiram transmitir esse alento e, de alguma forma, essa fé, aos colegas de prisão?

FB: Sem dúvida, pois a maioria era comunista ateia e quando um de nossos companheiros era assassinado na tortura ou em confronto com a repressão, os companheiros ateus vinham nos pedir para fazer uma celebração na cela.

OT: No tempo em que esteve preso, você teve contato com membros do PCC?

FB: Isso é um mito criado por setores direitistas da mídia, para tentar encobrir a incompetência da polícia. Vivi dois anos – dos quatro que fiquei preso – na condição e em companhia de presos comuns. Graças a isso, muitos comuns se recuperaram. O PCC foi criado nos anos de 1990.

OT: Qual era a sua relação com o Marighella? O que ele representava para os resistentes como você ao regime militar?

FB: Nós dominicanos formamos um grupo de apoio aos militantes da ALN (Ação Libertadora Nacional) comandada por Marighella. Estive várias vezes com ele. É um herói da história de nosso país, conforme retrata Mário Magalhães na biografia que escreveu sobre ele. Wagner Moura agora prepara um filme sobre Marighella.

OT: Por que decidiram dar cobertura ao grupo de guerrilha? Vocês tinham ciência sobre o que essa decisão poderia acarretar mais tarde, principalmente, para vocês?

FB: Tínhamos plena consciência das possíveis consequências. Tínhamos 20 anos na década de 1960, éramos uma geração viciada em utopia. Quanto mais utopia, menos drogas. Quanto menos utopia, mais drogas... O que não dá é viver sem sonhos.

OT: A leitura da época, entre os militantes contra a ditadura, era a revista Veja. Hoje, a publicação é considerada de direita e conservadora. Qual a importância que tinha a mídia naquela época? Aliás, com toda a censura vigente na época, vocês confiavam na mídia?

FB: Jamais confiamos na mídia. Havia exceção, como o jornal Folha da Tarde, do qual fui repórter e chefe de redação. Também Opinião, Movimento e outros tablóides, como Pasquim. A Veja era dúbia, uma no cravo, outra na ferradura. É vergonhosa a cobertura que deu da prisão dos frades dominicanos.

OT: Você notou algo de semelhante na postura da polícia durante as manifestações que ocorreram aqui (e em todo o país) no meio do ano passado, e na repressão da época da ditadura? Qual a sua opinião sobre a desmilitarização da PM?

FB: Após 50 anos do golpe militar, o Brasil ainda está marcado por sequelas da ditadura, como a PM, a estrutura política, a falta de reforma agrária. Sou contra a existência da PM. Deveria haver apenas polícia civil qualificada. Nas manifestações de 2013 a polícia agiu como nos tempos da ditadura, inclusive se infiltrando entre os manifestantes e provocando arruaças, para tentar jogar a opinião pública contra os manifestantes.

OT: Muita gente que lutou com você na Ditadura chegou ao poder. Como você vê a participação deles no cenário político e social?

FB: Com orgulho. E cadê os torturadores, os generais assassinos, os mandantes de crimes e desaparecimentos? Têm vergonha e medo de mostrar a cara.  

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