Batismo de rua vira discussão sobre passado de delegado

A rua do bairro Luxemburgo leva o nome de um delegado que participou do regime e divide a opinião de parlamentares quanto a sua real participação na ditadura

iG Minas Gerais |

Outro projeto de mudança de nome de rua proposto pelo vereador Tarcísio Caixeta está suspenso. É o caso da rua Luiz Soares da Rocha, no bairro Luxemburgo. O nome é de um delegado da Polícia Civil mineira, incluído no projeto "Brasil: Nunca Mais", que publicou um relatório com denúncias das vítimas da ditadura militar. A pesquisa foi feita ao longo de cinco anos e é acerca do período entre 1964 e 1979, com base nos relatos de vítimas, documentos oficiais dos órgãos de repressão, registros de órgãos de defesa dos direitos humanos, entre outros. O policial que dá nome à rua aparece entre os acusados de tortura.

Os vereadores Cabo Júlio (PMDB) e delegada Elaine Matozinhos (PTB) argumentaram ser contrários à alteração no nome. Segundo a vereadora, o delegado – assim como todos os outros policiais brasileiros acusados – nunca foi condenado por tortura. “Não vamos permitir que sujem o nome dele. Só existe um único registro contra ele, no livro "Brasil Nunca Mais". Mas existem vários outros, inclusive de jornalistas, que mostram que ele evitou um banho de sangue quando a polícia invadiu uma casa com sete militantes armados no bairro São Geraldo e houve confronto com policiais mortos”, defendeu Elaine.

De acordo com o engenheiro Maurício Paiva, que estava na casa e foi baleado duas vezes durante o tiroteio, o delegado realmente fez uma intervenção. “Já estávamos amarrados e, como tinha havido mortes do lado deles, um policial com uma metralhadora na mão poderia ter nos executado. Seria uma chacina, e ele não deixou. Mas ele só fez o papel dele, como comandante da operação. E também não sei se ele o fez por compaixão ou se foi apenas por ter o intuito de tirar mais informações de nós sete”, lembrou.

Ainda conforme a vereadora, o policial nunca foi torturador e é um homem que tem muito respeito da polícia. “Tanto é que a medalha de honra oficial da Polícia Civil, conferida a policiais e pessoas importantes para o Estado, leva o nome dele”, afirma a vereadora.

Entretanto, não é bem isso que conclui um documento da Comissão Nacional da Verdade, que trata sobre o militante João Lucas Alves, encontrado morto em março de 1969, supostamente por se enforcar com a própria calça em uma cela da Delegacia Especializada de Furtos e Roubos de Belo Horizonte, localizada na rua Pouso Alegre. Conforme o documento, Luiz Soares da Rocha foi quem solicitou o traslado do preso para a capital mineira, já que tinha sido preso no Rio de Janeiro.

Também consta no documento que o chefe da delegacia, delegado Antônio Nogueira Lara Rezende, afirmava em depoimento prestado em 1970 que os presos eram ouvidos pessoalmente pelo delegado Luiz Soares. “Resta indubitável que o delegado Luiz Soares da Rocha, responsável pelo traslado, interrogatório, e a quem estava completamente entregue João Lucas Alves, friamente ludibriou a mãe dele, posto que, morto desde 6 de março, do dia 8 de março ao dia 11 alimentava a via crucis da Sra. Odília Alves, com o delegado esquivando-se ao recebê-la, fazendo-a joguete das circunstâncias que engendrava”, concluía o documento.

Por fim, a comissão concluiu que “João Lucas Alves foi morto, mediante tortura, na cela especial da Delegacia de Furtos e Roubos por conduta direta do delegado Luiz Soares da Rocha, com o concurso omisso do delegado Antônio Nogueira Lara Rezende, do major Gilberto Pessoa, Chefe do SNI em Minas Gerais e do comandante do ID/4: general Gentil Marcondes Filho”.

Veja o mapa de onde estão alguns exemplos de ruas que homenageiam apoiadores da ditadura e outras de pessoas que lutaram contra o regime.

 

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