Vinte anos sob as mãos de ferro do marido chegam ao fim

Mulher de 45 anos e os quatro filhos viviam presos em casa e apanhavam do homem

iG Minas Gerais |

Reencontro. Cira Gina agora vai viver com o pai, a quem reencontrou ontem, junto com os filhos
Reprodução de TV
Reencontro. Cira Gina agora vai viver com o pai, a quem reencontrou ontem, junto com os filhos

RIO DE JANEIRO. Brincar na areia da praia parece coisa de criança, mas quem fez isso maravilhada na quinta-feira, pela primeira vez, foi uma mulher de 45 anos. Mantida presa pelo marido na própria casa durante 20 anos, para Cira Gina da Silva conhecer tudo de que foi privada por quase metade da vida foi como ter nascido novamente.

“Agora estou feliz para sempre”, disse, sem parar de sorrir, depois de passar parte da tarde na Praia do Recreio, no Rio de Janeiro.

A expressão de alegria ao conhecer o mar em nada lembrava o martírio vivido por ela a mais de 1.400 quilômetros dali, na cidade de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Encarcerada junto com os quatro filhos, mesmo apanhando do marido quase que diariamente, ela não gritou por ajuda.

“Tentei, mas a coragem não deu. O medo não deixou. Eu tinha um medo, agora não tenho mais. Acabou. Graças a Deus”. Ela conclamou as mulheres a criarem coragem. “Elas não estão aí para serem escravas deles”.

Além das surras, que deixaram vários dentes de Cira quebrados, manter relações sexuais com o marido era como ser estuprada debaixo do próprio teto. Cira conta que a aversão começou a partir do momento que o marido passou a ser agressivo.

“Quando ele brigava comigo eu já não queria saber mais dele. Eu não sabia que ele era violento, depois que eu vim saber. Quando ele começou a me maltratar, me ofender, depois disso que começou meu tormento lá dentro da casa. Meu e dos meus guris”, contou.

Serena, ela não se ressente pelo fato de sua família conhecer o drama que vivia na precária casa do bairro Aero Rancho e não ter denunciado. De acordo com ela, revelar a história à polícia oferecia risco à vida de todos. “Eles (os familiares) sabiam, mas ele falou que, se eles fossem atrás de mim, ia matar todo mundo”.

O pesadelo acabou em dezembro do ano passado quando, a partir de denúncias de vizinhos, a polícia prendeu o agressor, de 58 anos, na casa que servia de prisão. De acordo com a delegada Rosely Molina, que acompanhou o caso, a vizinhança tardou a denunciar também por medo.

Na ocasião, foi constatado que apenas dois filhos do casal frequentavam a escola. Os outros eram mantidos no isolamento. O cárcere tinha muros altos e um portão de ferro e, no lugar do banheiro, o que havia era um buraco feito no chão do quintal.

Cadeia

Balanço. Dado mais recentes do Ministério da Justiça mostram que, de junho a dezembro de 2012, a população carcerária do país presa por cárcere privado era de 1.670 pessoas.

Primeiro sorvete

A delegada Rosely Molina ficou impressionada com a expressão das crianças ao chegarem na delegacia. Segundo ela, era como se eles não conhecessem o mundo exterior. Sentimento compartilhado também pela mãe. Durante sua visita ao Rio, após o almoço, Cira perguntou se poderia tomar um sorvete. Até então, ela nunca havia experimentado.

Denúncias ao 180

Dados da Secretaria de Políticas para as Mulheres revelam que no primeiro semestre do ano passado 304 casos de mulheres em cárcere privado foram denunciados ao Disque 180. Além disso, dos casos de violência denunciados a principal é a física, seguida pela psicológica. Em 83,8% das ocorrências relatadas o agressor era o companheiro, cônjuge, namorado ou “ex” da vítima.

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