Escolas militares consideram data como "reforma democrática de 1964”

Diferente da grande maioria das escolas, o golpe é tratado no Colégio Militar de Belo Horizonte como reforma democrática ou revolução de 1964; os livros da disciplina são produzidos pelo Exército

iG Minas Gerais |

A direção do Colégio Militar de Belo Horizonte não autorizou a gravação com os alunos por acreditar que a abordagem desse “tema polêmico poderia criar um sentimento de revanchismo, agora que vivemos em um estado democrático”. No entanto, um ex-aluno do colégio revelou que os livros de história são feitos por um departamento do Exército e distribuídos aos alunos internamente. Neles, o golpe é tipo como a revolução democrática de 1964.

Felipe Rodrigues, 21, estudou no Colégio Militar de 2005 a 2010, da 5ª série ao 2° ano. Ao completar 18 anos, ele fez a prova do Enem e atingiu o certificado de conclusão do ensino médio, indo direto para a faculdade de direito. “Lá, essa parte da ditadura era particularmente interessante. Tínhamos professores civis e militares, e os civis falavam de forma diferente, chamavam de golpe, ditadura, mas, mesmo assim, existia uma censura. Era uma orientação de todos os órgãos superiores para que o corpo docente não se referisse ao período como golpe ou ditadura”, contou.

“Já os professores militares chamavam de revolução democrática de 64 e governo militar. Em alguns debates, perguntávamos se não era ditadura e eles diziam que, como ainda havia o Congresso e a oposição e como a imprensa não era totalmente estatizada, não era ditadura. Alguns até insistiam de maneira bem ferrenha, bem incisiva nessa nomenclatura e na afirmação de que na época não houve ditadura”, revelou Felipe.

Além disso, ele contou que o material didático da matéria de história era fornecido pelo próprio Exército: “Todos os outros livros eram de autores de fora, como ocorre na maioria das escolas, mas o material de história era um livro militar, produzido pela Diretoria de Educação Preparatória e Assistencial do Exército (Depa). Eram uns três ou quatro livros que a própria editora ia entregar no colégio, e a gente tinha que passar para os outros alunos depois, havia um esquema de distribuição diferente”.

O ex-aluno ainda compara as aulas de história a uma lavagem cerebral. “E funcionava muito bem para muitas pessoas. Tem muita gente que sai de lá abraçado com esse discurso e não consegue abrir mão depois, colegas nossos mesmo. Às vezes, essa influência não vinha só do colégio. Muitos alunos eram filhos ou parentes de militares ou mesmo vinham de famílias que gostaram do período da ditadura”, disse.

Ditadura na escola

Professor de história nas redes estadual e municipal de Ribeirão das Neves, Rodrigo César Faria Gomes analisa as aulas no colégio. “A ditadura ainda vive até hoje no Colégio Militar. Tem profissionais que trabalham comigo e dão aula lá também. Os profissionais têm salários diferenciados no Colégio Militar. São tratados como um pessoal civil-militar. Devido a uma série de benesses e a melhores condições físicas de trabalho, eles se sujeitam aos desmandos do comandante do colégio. É mais ou menos assim: se você pegar um profissional do ensino, existe uma diferença de 15% a 20% em comparação com os funcionários do Colégio Militar. Para você ter uma ideia, eles estão escalonados no aumento de salário das polícias. O salário deles vai dobrar em 2015 em relação à remuneração de 2011”, revelou.

[FOTO DA FACHADA DO COLÉGIO]

 

Lembranças

O cineasta Helvécio Ratton, diretor do filme Batismo de Sangue que retrata o envolvimentos dos freis dominicados na luta contra a ditadura, foi aluno do Colégio Militar e relata sus experiências.  

 

[VÍDEO “UM REVOLUCIONÁRIO NO COLÉGIO MILITAR

https://www.youtube.com/watch?v=br2ApNVoAks&feature=youtu.be ]

 

 

 

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