Projeto quer desconstruir ideia de que pelos são sujos

A antropóloga Denise Costa, que pesquisa a beleza na sociedade moçambicana para seu doutorado na Universidade de Brasília (UnB), fala sobre a cultura da depilação e discute os significados atribuídos aos pelos no corpo

iG Minas Gerais | Raquel Sodré |

1) De onde vem esse costume de arrancar os pelos do corpo?

Meu trabalho está menos voltado para as origens do que para a prática. Vale ressaltar que, ao nos referir aos pelos do corpo, estamos falando de uma questão mais ampla relacionada à beleza e ao erotismo. Poderia afirmar, de maneira simplista, que os cuidados com os cabelos e pelos variam de "cultura" para "cultura" e de época também. Assim, existem hábitos relacionados aos cuidados com o corpo que são diferentes em regiões e épocas distintas. Além disso, mesmo no âmbito da "cultura" tais práticas não são consensuais, mas verdadeiros campos de batalha que inscrevem o corpo em uma micropolítica complexa, nem sempre mapeada pelos textos escritos.

2) Qual a sua opinião sobre o movimento Pelos Pelos?

Penso que esse ensaio se propõem a desafiar uma certa estética que entrou na moda de umas décadas para cá no Brasil e que está sendo cada vez mais usada por certo segmento da população. Quando o projeto mencionado propõe a possibilidade de uma outra estética, ele almeja desconstruir uma concepção vigente de que a depilação significa higiene, status, limpeza. Essas são concepções atribuídas aos pelos do corpo, sobretudo feminino, que aos poucos foram naturalizadas e tornadas verdade.

3) O que a depilação representa para a mulher em nossa sociedade?

Inúmeras coisas. Passando do contato lúdico com  cuidados com o corpo (há quem sinta prazer ao depilar, o salão pode ser um espaço feminino de sociabilidade e até mesmo de libertação) até o sentimento opressivo de ter que se curvar a um padrão de beleza considerado adequado. O cuidado com os pelos, e portanto com a beleza, representa ainda uma expressão do corpo como espaço político: nele é possível observar expressões de relações de gênero, desejo de controle sobre a natureza, e assimetrias de exigências sobre corpos que são genderificados.

4) Há uma dominância masculina na imposição social da depilação?

Não diria que há uma dominância masculina, mas uma imposição machista que atinge homens e mulheres em sua relação com o corpo estabelecendo assimetrias de gênero. Há várias nuances a serem consideradas. A moda dominante atual considera que os pelos das mulheres representam padrões de impureza, de sujeira. Hoje, nesse contexto, os pelos femininos agridem, sugerem ameaça, provocam reações de repulsa. Poderia se pensar: mas homens têm cada vez mais depilado. Sim, mas eles não são obrigados a fazê-lo da mesma forma que as mulheres se sentem impelidas a tal. Ademais, em alguns contextos, a depilação masculina é vista como algo que se aproxima do campo do feminino ou homossexual sendo condenada por esse motivo. Isso nos diz muitas coisas sobre as relações de gênero no campo da estética.

5) Você diria que vivemos uma “ditadura da depilação”?

Existe sim uma disseminação, uma moda, que se alastra ditando o que é belo. Tal propagação - encontrada em revistas, sites de conteúdo pornográfico, televisão, etc - espalha imagens que intencionam, a maior parte das vezes com êxito, ditar gostos. No campo subjetivo, isso tem consequências perversas. Essas vão desde sentimentos obssessivos em relação ao próprio corpo, até a coação de certos níveis de consumo. Não nos esqueçamos que beleza e erotismo são campos da produção de desejo que estão impulsionados pela indústria da beleza.  

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave