‘Notas vinham para serem assinadas em branco’

Ex-funcionária conta que sofria ameaças para atestar notas de lanches fornecidos por Carlos Clarindo, o Carlão, que coletava assinaturas para ele preenchê-las posteriormente

iG Minas Gerais | Da Redação |

Ex-funcionária diz que foi ameaçada por Carlão
João Lêus
Ex-funcionária diz que foi ameaçada por Carlão

O Tempo Betim recebeu em suas dependências uma ex-funcionária da Secretaria Municipal de Assistência Social (Semas) que fez declarações que podem complicar ainda mais a situação do vereador Léo Contador (DEM) e do ex-locutor de Carlaile Pedrosa (PSDB) Carlos Alberto Clarindo, o Carlão, além de outros políticos da cidade. A entrevista com a mulher foi gravada na semana passada, mas o nome dela será preservado como medida de segurança. Isso porque a ex-funcionária faz revelações bombásticas de como era a rotina em um dos Centros de Referência de Assistência Social (Cras) da cidade. Fala claramente sobre o fornecimento de lanches pela empresa criada pela irmã de Carlão, Adriana Clarindo, e que festas e assédios morais e sexuais eram comuns na secretaria comandada por Léo Contador. Os convênio Pró-Jovem e Socialização eram, segundo a entrevistada, “caminhos para muita coisa errada que foi feita”. Confira:

Você trabalhou no Cras durante o ano de 2013, no período em que surgiram as denúncias de desvio de recursos federais nos convênios com a ONG Irmãos Glacus. Que tipo de irregularidades você presenciou?

Acontecia todo tipo de problema. Dentre eles, o fato de funcionários não aparecerem para trabalhar. A assistente social marcava o atendimento com a população, mas não aparecia. E toda vez que eu ia levar esse problema à coordenação, eles não resolviam. Chorava, porque via o psicólogo indo embora e a população esperando por atendimento. A maioria (dos funcionários) não trabalhava, saía para almoço, fazia churrasquinhos no meio do expediente. Era um inferno.

Com relação aos lanches fornecidos pela irmã de Carlão, Adriana Clarindo, você teve acesso as notas fiscais? Como elas chegavam para você assinar?

A Glacus era responsável pelos lanches para o Pró-Jovem. A irmã do Carlão era quem fornecia. As notas chegavam para mim sem valores, sem o tipo de lanche que era fornecido. Eu então comecei a questionar aquilo. Como eu ia assinar um papel (uma nota fiscal) em branco, sem um recibo? A nota só tinha o nome da padaria, escrito, tipo assim, “100 lanches”, mas não discriminava e não tinha o valor de cada lanche. Quando o entregador chegava, eu dizia que não ia assinar. Ele dizia que todo mundo assinava, mas eu rebatia. Como eu poderia fazer um faturamento para depois bater com o repasse? E, depois, como eu poderia fazer um faturamento dessa nota? O tempo foi passando, e fui recusando assinar. Um dia, Carlão foi ao Cras e apontou o dedo para mim.

Houve ameaças? Ele disse que eu não sabia onde eu estava me metendo e que todo mundo assinava (as notas dos lanches). Eu lhe respondi que não estava acostumada com isso. Ele, então, perguntou de onde eu era contratada, já com indício de ameaça. Não respondi. Ele me disse que ele era “cargo comissionado” e que isso (as notas) era coisa dele com a Dafe (órgão de faturamento financeiro da Semas). Falei para ele que, mesmo assim, eu me recusava a assinar e disse que ele não poderia me obrigar, pois não era meu chefe imediato. Então, fui até a Semas e disse que estava tudo errado, porém, quando cheguei lá buscando apoio, eles simplesmente falaram “para eu não me meter nisso, “que as notas eram assim mesmo, sem valor”. Eu peguei e perguntei: “Mas quem garante que vocês vão repassar? Eu vou receber lá?”. Eu disse que não ia me colocar no meio disso. Aí começou o assédio moral (dentro da secretaria).

Como eram os lanches fornecidos pela irmã de Carlão? Quando vinham, eram lanches com pão de sal e manteiga, ou pão com mortadela, com uma caixinha vagabunda de suco. As crianças recebiam só isso e um bolo de aniversário no fim do mês. Os lanches eram muito básicos; devem ter custado preço de banana. Eram duros, velhos, pão dormido, sem controle de qualidade. Deve ser por isso que as notas não tinham valores.

E que outras irregularidades você encontrou na Semas? Tinha as cestas básicas. Na verdade, elas chegavam em um carro particular, sem logomarca, mas eu sabia que o carro era do Sapão (vereador), porque eles (funcionários do Cras) comentavam. Eles diziam: “Isso aqui é do Sapão, foi ele que mandou para a gente entregar”. A gente sabe que o assistencialismo é proibido, mas, mesmo assim, o Sapão mandava cestas para serem entregues em nome dele. Nas terças e quintas, a prefeitura mandava um carro, e as assistentes sociais (da Semas) entregavam as cestas para as famílias. Eu questionei o assistencialismo, que isso é crime... Eles falavam que estava tudo sob controle.

Havia outras irregularidades? Outra coisa irregular que faziam era na prestação de contas ao governo federal. Eles colocavam 200 atendimentos no mês, mas não atendiam a essa quantidade de pessoas. Muitas vezes, eu fui obrigada a inventar um usuário para cobrir os vales-transportes que sumiam misteriosamente. Diziam (os outros funcionários) que deixaram de anotar, mas como você faz um atendimento e não registra? Eu sempre questionei isso, o tempo todo, e isso foi gerando atritos. Além disso, tinha muito assédio, não só moral. Teve um dia em que eu cheguei dentro de uma sala e estava o coordenador alisando a recepcionista debaixo da saia. Lá era um jogo de “QI”, de “quem indica”. Por não concordar, acabei sendo demitida.

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