Regina Flor

iG Minas Gerais |

acir galvao
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Ao saber de tudo, seu nome soa enganador. “Eu tinha dois anos quando meu pai disse para minha mãe que ia sair de casa. Ela ficou sozinha cuidando de mim, de um irmão um ano mais velho e de outro que estava com seis anos. Claro que eu não me lembro de como foi que tudo aconteceu, mas minha mãe conta que comeu o pão que o diabo amassou, imagina, cuidar de três crianças pequenas, trabalhando fora, com poucos recursos”, é o que me diz Regina Flor, a infiel. O título nada honorífico é por minha conta, suscitado pelo que ela já me relatou cheia de orgulho e desfaçatez. “Às vezes ela saía do serviço, passava na escola em que o filho mais velho estudava, resgatava a mim e ao meu irmão mais novo na casa da nossa avó, onde ficávamos durante o dia, ia fazer as compras, chegava em casa de noite, morta de cansaço, enfim, era uma labuta homérica, uma verdadeira provação. Volta e meia minha mãe se queixa comigo de como era penoso cuidar de tudo sozinha, sem o apoio do marido. Mas a verdade é que, mesmo antes da separação, meu pai já não tinha lá muita serventia para essas coisas do lar, ficava era assistindo futebol na televisão, saía para beber com os amigos e passava a noite fora, não era capaz de lavar uma xícara de café sequer. Isso tudo ela é que me conta”. Regina Flor tem 28 anos, é dona de uma beleza rara, de um corpo escultural, de uma sagacidade ímpar e de um histórico de relacionamentos unilateralmente vitoriosos. Não foram poucos os rapazes que passaram pela vida de Regina Flor, e todos, sem exceção, sofreram o inferno nas mãos da moça, foram carcomidos pelo ciúme, viram a autoestima escorrer pelo ralo. Regina gosta da imagem de “menina má” – a expressão é dela própria, e sempre vem à baila quando fala dos garotos com os quais se envolveu. “Minha mãe conta que meu pai, depois que saiu de casa, se limitava a nos visitar eventualmente e pagar as despesas devidas. Nisso aí ele sempre foi muito correto. Minha mãe nunca demonstrou raiva do meu pai, mas eu via em seus olhos uma tristeza profunda toda vez que falava dele; sempre desconfiei que ainda o amava, que ainda o ama, apesar das negativas”. Regina nunca se interessou em saber a versão do pai sobre a separação. Os muitos relacionamentos amorosos que Regina viveu desde que pode são uma coisa importante para ela, mas não pelo que a gente crê de bom neles, e sim como um exercício que não se deve deixar de praticar, e que subentende um oponente a ser vencido. Dizer que Regina cultiva um espírito de vingança contra os homens em função do que sua mãe conta a respeito do casamento fracassado talvez seja simplista, até porque, ao contrário do que o relato até aqui possa sugerir, ela tem um ótimo relacionamento com o pai. Com o pai real, diga-se, porque daquele que povoa de maneira tão recorrente as histórias que sua mãe conta, ela tem sincera aversão. É como se o pai que Regina encontra com regularidade fosse uma pessoa – doce, atenciosa, a quem ela tributa respeito e admiração – e o ex-marido de sua mãe fosse outra, que de certa forma não existe, que é difusa, que pode ser, em última instância, a representação de todo e qualquer homem na face da Terra. Fato é que os ex-namorados que também foram investigados para a “Enciclopédia das Personalidades” concordam que Regina, apesar da beleza exuberante, não é flor que se cheire. Texto originalmente publicado no dia 29.6.2012. O colunista está de férias.

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