A Persona Bergman

‘Instante e Eternidade’ traz maior mostra de Ingmar Bergman na América Latina a BH

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Psicanálise. Bergman tratou de várias questões pessoais em seu cinema, desde traumas de infância a divórcios
AP / ARQUIVO
Psicanálise. Bergman tratou de várias questões pessoais em seu cinema, desde traumas de infância a divórcios

Há uma quebra da quarta parede em uma cena de “Mônica e o Desejo”, de 1953, quando a protagonista do título, na cama com o amante, traindo o marido, olha diretamente para a câmera. “É o Bergman se humanizando, colocando-se no lugar da personagem ao olhar para o espectador pedindo compaixão, como quem diz ‘somos todos pecadores, olha o lugar que estou’”, reflete o curador do Cine Humberto Mauro, Rafael Ciccarini.

É um momento que sintetiza o cinema de Ingmar Bergman. Nele, dramaturgia e linguagem se unem em busca de respostas – sobre o ser humano, Deus, a solidão, a morte e a impossibilidade do amor – que a vida não é capaz de dar. “Nenhuma arte vai além do mero consciente quanto o cinema, em direção às nossas emoções, nas profundezas do crepúsculo da alma”, pontificou o diretor.

É esse tratado filosófico em formato audiovisual que o Cine Humberto Mauro apresenta a partir de hoje com a mostra “Ingmar Bergman – Instante e Eternidade” (leia detalhes da programação na página 2). São 78 filmes e 160 sessões, entre longas, curtas, documentários, bastidores de filmagem, teleteatros, séries de TV, duas óperas, uma adaptação e... comerciais. “O Bergman é tido como esse diretor super hermético. Imagina ele fazendo propaganda de sabão”, brinca Ciccarini. Deve fazer você querer se lavar de todos os seus pecados.

“Para o Bergman, o homem é solitário, vive no inferno e a morte é inevitável”, pontua Ciccarini. E para alguém que vive o tempo todo atormentado com essas dúvidas, a arte é sobrevivência, uma espécie de pulsão vital capaz de nos mover adiante. Os sonhos e pesadelos que permeiam seus filmes são uma tentativa de reflexão estética e psicanalítica sobre o que o consciente não é capaz de responder. “Essas questões são o ponto de partida da obra, a ponta do iceberg. Mas o que interessa ao Bergman é, se existe um iceberg, vamos descer. É uma exploração mais profunda”, analisa.

A mostra – a mais completa do cineasta já realizada na América Latina – pretende revelar como o diretor investiga suas questões existenciais em um cinema universal e realizado dentro da indústria sueca. “É um cinema que fala dos problemas de todo mundo, de casamento, solidão, a busca de Deus, o sentido da vida”, explica o curador. Para ele, a pecha do “cineasta europeu de temas inalcançáveis” é um mito equivocado que a retrospectiva vai desconstruir.

“Considerando o grau de profundidade com o qual ele se propõe a descer nos temas filosóficos, o Bergman é bem popular”, argumenta. Para Ciccarini, esse grau só pode ser comparado às influências do cineasta, como os existencialistas, Strindberg, Ibsen, “que são em geral bem mais áridos”.

Esse é um dos motivos pelos quais a organização decidiu fazer a abertura oficial hoje com o documentário “Liv & Ingmar”, sobre a relação com a atriz Liv Ullmann que humaniza bastante o diretor. “Liv não seria a mesma sem Bergman, nem Bergman seria o mesmo sem Liv”, sintetiza.

Palco e rosto. Mas para dar conta desse profundo escopo temático, a mostra recorreu à experiência teatral do sueco. Além do cinema, Bergman dirigiu cerca de 200 peças, algumas filmadas para a TV. “O desafio curatorial foi resgatar esse legado perdido no tempo e dialogar com a importância dele como diretor teatral. Porque teatro e cinema em Bergman são uma simbiose”, explica Ciccarini.

Do palco, o cineasta trouxe a ideia de companhia, de trupe, trabalhando sempre com os mesmas pessoas – desde os atores Erland Josephson, Bibi Andersson e Liv UIlmann ao diretor de fotografia Sven Nykvist. Mas a ele importa, acima de tudo, o trabalho com o ator na busca pelo instante.

“Teatro é a arte do efêmero. Cinema é a máquina que produz eternidade. O que o Bergman busca é trazer essa força do instante na relação com o ator”, analisa o curador. A intensidade dessa troca na obra dele é tão grande que não é por acaso que o cineasta se envolveu romanticamente com várias de suas atrizes.

E se a sétima arte coloca a câmera como um mediador nesse encontro, o sueco usa o primeiro plano para ir além do que o palco proporciona e construir o que o Ciccarini chama de ‘dramaturgia do rosto’. “É o rosto como espelho da alma, com um olhar ou uma respiração contida dizendo o que a palavra tenta esconder”, elabora.

Foi dessa centralidade do teatro na obra retratada que surgiu o convite ao diretor Ricardo Alves Jr. para adaptar “Saraband”, último telefilme de Bergman, para os palcos mineiros. Assim como o sueco, Alves transita entre o teatro e o cinema. E foi dele a ideia de trazer a dramaturga Grace Passô para o processo.

Mais que uma mera transposição, “Sarabanda”, encenada no Grande Teatro do Palácio das Artes nos dias 22 e 23 de abril, será um exercício de pesquisa de linguagem e um tributo à herança do sueco nos dois meios. “O palco vai estar atrás da plateia e os elementos cênicos, desde o proscênio, o fosso da orquestra e o elevador serão utilizados de forma dramatúrgica, ao lado de projeções e filmagens”, atiça o curador.

Tudo isso para revelar um Bergman que é mais do que o cineasta existencial ou da psicanálise, mas um inventor de linguagem. Ciccarini lembra de uma cena de “Sonata de Outono” em que a mãe vivida por Ingrid Bergman senta com a filha, Liv Ullmann, ao piano para ensiná-la a tocar um prelúdio de Chopin.

“É um momento de uma frieza cortante em que a mãe gelada não entende que o que a filha quer é carinho, ao mesmo tempo em que ela demanda grande sensibilidade ao tocar o piano. É o paradoxo de arte e vida que Bergman encena em seu cinema e que a gente quer trazer”, filosofa.

“Nenhuma arte vai além do mero consciente quanto o cinema, em direção às nossas emoções, nas profundezas do crepúsculo da alma”

- Ingmar Bergman (1918–2007)

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