A magia global (e individual)

iG Minas Gerais |

salomão salviano
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O Rio de Janeiro tem uma mágica, um fascínio despertado em todas as pessoas que é meio inexplicável, já até escrevi isso aqui certa vez. Por mais que se viva bem em qualquer cidade do mundo, bastou pisar em solo carioca e você fica assim: encantado, enfeitiçado, estacado, enamorado. E é certeza que deve acontecer isso com os famosos também, pois eles estão todos aqui, se proliferam nas areias das praias da zona Sul, ressurgem nos shoppings da Barra, se teletransportam por toda extensão da Cidade Maravilhosa. Culpa também de um lugar na zona Oeste da cidade chamado Projac, a Central Globo de Produção.

Visitei esse complexo gigantesco na semana passada pela quarta vez e, ainda assim, me surpreendi com tudo que vi e senti. Fui cobrir algumas coletivas e, como já estava por lá, as assessoras de imprensa agendavam algumas entrevistas com os atores, para assistir nos estúdios a algumas gravações das novelas, uma visita rápida à cidade cenográfica, isso tudo e mais um pouco. Mas é aí que tá o perigo. Disse que ainda assim me surpreendo, mas, ao visitar o Projac, você tem que fazer a linha total, porque é tanto famoso por metro quadrado que, se você se deslumbrar, acaba tendo um torcicolo ou é expulso por assédio. Sim, o local realmente é deles, então, nada de ficar babando ovo ou tirando mil fotos pra postar no Facebook. É uma regra implícita.

Vou exemplificar. Na portaria principal, desço do táxi e dou de cara com Laura Cardoso. Quase caí da calçada, mas mantive a pose. Na catraca da entrada, cruzo com Helena Ranaldi. Fui ali fazer xixi na praça de alimentação e o cenário é: Humberto Martins servindo no self service, Alexandre Borges comendo uma saladinha, Cássio Gabus Mendes na fila do Bobs e Miguel Falabella fumando um cigarro do lado de fora. É pra rir, né? Ou chorar! Uma pessoa descontrolada perde ainda mais o arreio numa situação dessa. Não tem como não olhar e querer ficar perto pra conversar, ou simplesmente ver o que eles estão fazendo. E é nesse ponto que não raciocinamos. O que eles estão fazendo? Ué, eles estão vivendo, como eu, você, todos nós.

Acompanhei duas gravações no estúdio A: uma cena entre Mariana Ximenes e Ricardo Pereira em “Joia Rara”, e outra do núcleo Julia Lemmertz, Bruna Marquezine e cia de “Em Família”. Nas duas gravações, além do encantamento que é ver como tudo é feito, a preocupação com as luzes, o figurino, a maquiagem, as câmeras, a tecnologia, o papel do produtor, do diretor, e tudo mais, ainda tem aquele baque de ver, nos intervalos entre as cenas, os artistas fazendo aquilo que todos nós fazemos. Mariana Ximenes comeu um pedaço de pão seco que quase se engasgou; Bruna Marquezine gargalhava ao mostrar para Thiago Mendonça um vídeo no celular que está fazendo o maior sucesso, o mesmo que roda os Whatsapps de todo mundo; Paulo José não conseguia manter o cão adestrado de Virgílio por perto, e por aí vai...

O mais louco é que todo mundo deveria fazer o que fiz nesses últimos dias. Parece patético, mas não é. É uma quebra real do nosso imaginário televisivo, de tudo que vivemos acompanhando desde crianças. Imagine eu entrevistando e olhando nos olhos de Marco Nanini, Marieta Severo, Cauã Reymond e Cleo Pires? Tinha hora que engasgava, a caneta tremia em cima do caderninho, mas no fim você percebe, através da simpatia e atenção prestada, que eles são pessoas normais como todos nós, e tudo vai bem. Reforçando o que eu disse lá no início: o Rio e a Globo exercem um poder sobre nós, não há como negar. Mas essa influência tem que brecar na ideia da produção simbólica e na barreira entre ficção e realidade. Imagens, estereótipos e discursos podem reger uma sociedade, mas não a sua vida individual. Só assim vamos ser globais de nós mesmos.

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