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Romeno Matéi Visniec inspira montagens de grupos brasileiros, que mostram trabalhos no Festival de Curitiba

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

“Espelho para Cegos” é uma das montagens inspiradas em Visniec
marcio meirelles/divulgação
“Espelho para Cegos” é uma das montagens inspiradas em Visniec

Curitiba. É corriqueiro ouvir que já se viu de tudo nos palcos, nas telas ou nas páginas dos livros. As temáticas das narrativas parecem ter se esgotado e invariavelmente os artistas ressaltam que mais importante que um enredo original é como essa ideia é estruturada. No entanto, de tempos em tempos, aparecem alguns que conseguem subverter essa lógica com seu trabalho artístico e, não à toa, tornam-se referências. Observando a produção atual do teatro brasileiro, um nome tem se tornado recorrente: Matéi Visniec. Autor de teatro romeno que se exilou em Paris, em 1987, por conta do regime do ditador Nicolae Ceausescu, ele é responsável por vários textos que são montados no país.

No Festival de Teatro de Curitiba, a atração pelo romeno se confirma, já que duas montagens de textos seus serão apresentadas na Mostra Oficial: “Espelho para Cegos” e “2x Matei”. “De repente, eu fui apresentado a 15 livros desse autor que eu nunca tinha ouvido falar”, destaca Márcio Meirelles, diretor do espetáculo “Espelho para Cegos”, da Companhia dos Novos de Salvador. “Li o ‘Teatro Descomposto ou O Homem Lixo’ (livro de Visniec) e tive uma empatia imediata com o discurso, por ser complexo. Identifiquei coisas que também me preocupavam, como essa ideia do teatro que ainda é analógico, em mundo digital, que o escritor apresenta”, explica ele.

Em sua temporada de estreia em Salvador, em agosto de 2013, a Companhia dos Novos teve a oportunidade de conhecer e se apresentar para o romeno, de passagem pela capital baiana. “Ele disse que não faria uma montagem tão maluca como a nossa, mesmo sob o efeito de LSD”, se diverte a atriz Sonia Robatto.

Em cena, Meirelles constrói uma narrativa fragmentada na qual nove atores ocupam mundos paralelos e dialogam com o homem contemporâneo, independente de qualquer barreira de nacionalidade. “O título da nossa peça é inspirado na introdução do livro, quando Visniec dá total liberdade a quem queira montar a peça, tanto que não há nenhuma rubrica (indicações dadas pelo autor para a montagem) no texto. Tem uma complexidade em sua obra que não divide o mundo em dois. Claro e escuro, bom e mau. Tem esse efeito disperso que lembra Shakespeare. Você se identifica, por exemplo, com Macbeth. Você é ele”, ressalta Meirelles.

BECKETT. Um dos autores mais celebrados da produção teatral do século XX é o irlandês Samuel Beckett. Os traços de sua narrativa fundados no Teatro do Absurdo serviram de forte influência para Matéi Visniec. Tanto que um de seus textos se chama “O Último Godot”, inspirado no clássico “Esperando Godot” do irlandês. “O personagem vai se encontrar com Godot e vai tirar satisfação com ele. Por que foi que ele não apareceu?”, indaga Gilberto Gawronski, ator e diretor da peça “2x Matei”, que estreou em Curitiba e se inspira em “O Último Godot” e também em “O Rei, o Rato e o Bufão do Rei”, também do autor romeno.

“Vi uma montagem dele em Taquatiara, no Amazonas, onde se chega só de barco”, destaca Gawronski. Visniec, na opinião do ator e diretor, não é apenas um fenômeno e muito menos um autor que foi descoberto somente no Brasil. “Soube que vai haver um seminário sobre o trabalho dele em Paris. É um autor que dialoga com o teatro contemporâneo”, diz.

O repórter viajou a convite do festival

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