Reencontro

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salomão salviano
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O menino olha para a menina e, esticando a mão pequena, cumprimenta-a sem jeito. Coincidentemente tinham a mesma idade, o cabelinho escorrido e a morenice na cara, como se fossem irmãos. Na verdade, foi o que de certa forma lhes propuseram os respectivos pais. – Filha, eu e Paulo estamos pensando em nos casar, refazer nossas vidas... E distante dali... – Filhão! Telma e Clarinha vão se mudar pra cá... E assim, Paulo, Telma, Carlinhos e Clara passaram a conviver sob o mesmo teto, numa pequena e pacata cidade de Minas. Tempos depois... – Não há mesmo a possibilidade de ser transferido? – Telma, eu não tenho como cobrar isso, já dou graças a Deus por estar trabalhando. Sou um engenheiro, para onde me mandarem eu vou... – Mas isso aqui é o fim do mundo! – Antes de vir, você já sabia, deixei tudo muito claro... – Não consigo trabalho... Nem sequer tem escola direito pros meninos! Não foi isso que sonhei pra Clarinha... – E pro Carlinhos? O que você acha? Se a mãe dele não fosse tão louca e irresponsável, eu o teria deixado com ela, numa escola decente, cursando inglês, estudando computação, treinando judô, sei lá, hoje em dia tem tantas coisas... – Pois é, tantas coisas e os nossos filhos aí, rodeados de semianalfabetos, mal aprendendo o português... – Telma, o que você quer que eu faça? Largue o meu emprego? – Eu não quis dizer isso...

– Então, o quê? E na rua o tempo parecia não passar. Junto à meninada da vizinhança, Carlinhos e Clara improvisavam brincadeiras. A amizade e a sintonia eram evidentes. Apesar da pouca idade, traduziam em palavras e ações sentimentos confusos que os afligiam. A mudança inesperada, a convivência forçada, a nova cidade, a nova escola, os novos amigos e, de certa forma, a nova família, tudo isso era demasiado para ambos. Talvez por isso, por compartilharem as mesmas experiências, a afinidade se manifestou de forma tão intensa. Não estudavam inglês, tão pouco ouviam falar em computação, mas duvida-se que alguém de fora soubesse como eles pescar traíra no açude, curar dores com raizadas e, nas noites de lua, contar histórias horríveis de mulas sem cabeça. As ruas calçadas de pedra lhes pertenciam; não havia trânsito, perigo de assalto. Pelos mais velhos aprenderam a ter respeito, pedir a bênção. Com os mais jovens, a amizade descompromissada, sem disputas, ostentações. Inexistiam desejos pelos tênis da moda, por celulares que enviam fotos, no máximo disputavam-se goiabas maduras, sombreados na praça... Até que um dia... – Filha, nós vamos ter que voltar... Os anos passaram, deixando saudosas lembranças. Perderam-se os contatos. E por aquelas estranhas veredas, Carlos tornou-se agrônomo, e a menina Clara, veterinária. E foi numa exposição de gado que os dois se reencontraram. Coincidentemente, trabalhavam na mesma cidade, no interior de Goiás. E desde então nunca mais se separaram.

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