Vivendo em tempos violentos

Marieta Severo chega a BH com o espetáculo “Incêndios”, vencedor do Prêmio Shell 2013 de melhor direção

iG Minas Gerais | daniel toledo |

Saga. Montagem acompanha trajetória da protagonista Nawal desde a juventude até a velhice, passando por traumas como a necessidade de se separar dos próprios filhos
Leo Aversa/Divulgação
Saga. Montagem acompanha trajetória da protagonista Nawal desde a juventude até a velhice, passando por traumas como a necessidade de se separar dos próprios filhos

É com nítido entusiasmo que, entre gravações e entrevistas, a atriz carioca Marieta Severo chega hoje a Belo Horizonte para três apresentações do espetáculo “Incêndios”, no qual interpreta a protagonista Nawal. Embalado por uma bem-sucedida temporada de três meses no Rio de Janeiro, assim como pela conquista do Prêmio Shell 2013 de melhor direção para Aderbal Freire Filho, a peça será apresentada de hoje a sábado, no Grande Teatro do Sesc Palladium. Em cena, acompanha-se diferentes momentos da existência de Nawal, uma mulher que atravessa sucessivas guerras civis e acaba tendo a própria vida destroçada por desmandos políticos e ódios religiosos. “Essa é uma personagem movida por incêndios interiores, que é triturada por uma série de acontecimentos e consegue renascer, mostrando-se capaz de reinventar a própria vida”, sintetiza a atriz. Nesse sentido, explica, o público entra em contato com marcantes acontecimentos na vida dessa mulher, como quando, ainda jovem, é obrigada a separar-se dos próprios filhos. “Em outro momento do espetáculo, são esses filhos que recebem da mãe, por meio de uma carta, a missão de resgatar histórias até então desconhecidas”. Tais idas em vindas, contudo, não são vistas pela atriz como algo que confunda ou afaste o espectador. “Pelo contrário, são recursos que ativam, de certo modo, a imaginação do espectador, fazendo com que ele consiga nos acompanhar aos diferentes tempos e espaços que experimentamos ao longo da peça. Pudemos ver, durante a temporada no Rio, que a história foi transposta ao teatro com uma clareza muito grande. Há muitos saltos de tempo ao longo da peça, e eles têm sido acompanhados pelo público com muita eficiência”, conta. Entre as várias questões que atravessam o espetáculo, observa Marieta, lhe chama atenção a marcante presença da violência entre os homens. “Procuro, de fato, que essa seja a questão mais visível dentro da peça: a violência civil, em uma situação que irmão mata irmão. E a Nawal é uma pacifista, que não aprova guerra nem violência, apesar de acabar se vendo envolvida nesse contexto”. Em sua visão, não é difícil estabelecer paralelos entre a situação levada ao palco e o atual momento brasileiro. “No fim das contas, vivemos uma situação bastante parecida, porém camuflada. É muito impressionante o número de mortos civis que o país contabiliza a cada dia, e essa é uma questão que me toca muito”, destaca a atriz, lembrando da própria convivência com a ditadura brasileira. “Coincidência ou não, estamos agora lembrando essa questão da ditadura, que acaba colocando a liberdade no centro da discussão. Se a minha própria juventude foi marcada por amigos e conhecidos mortos, o que temos hoje é uma violência civil equivalente àquela, que deveria nos impressionar tanto quanto ela”, defende Marieta, que identifica algumas aproximações entre a narrativa de “Incêndios” e a história da estilista brasileira Zuzu Angel. “Dedico, aliás, esse trabalho à Zuzu Angel, uma mulher que perdeu o próprio filho e foi atrás dele, reivindicando o direito de criar esse filho e acompanhar sua trajetória”, compara Marieta – que passou em auto-exílio alguns anos da ditadura e teve em solo estrangeiro, inclusive, a sua primeira filha. Assinado pelo libanês Wadji Mouawad, o roteiro da peça ganhou adaptação para o cinema em 2011. Sob direção do canadense Denis Villeneuve, a narrativa chamou atenção de várias partes do mundo e recebeu indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro naquele ano. 

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