O que escondem e o que revelam os escândalos

iG Minas Gerais |

O principal aspecto a ser verificado agora, quando vêm à tona os escândalos na Petrobras, é o fato de que o sistema político brasileiro faliu completamente. Na raiz do processo, a malfadada exigência constitucional de dois turnos – supostamente capazes de garantir a governabilidade, já que o chefe do Executivo sai das urnas com ampla maioria –, o que impõe a construção de um leque de alianças. Ademais, aos poucos, mas inexoravelmente, a campanha eleitoral passou a depender exclusivamente do horário eleitoral e dos debates na TV, que são, ambos, espetáculos de falsificação em matéria de confronto de ideias. Para isso também a sopa de letrinhas por detrás da coligação serve para dar a esse ou àquele candidato preciosos minutos a mais para se apresentar. Sumiram do mapa os comícios; acabaram os encontros nas universidades ou em outros locais públicos para discussão de propostas. Quando muito, o candidato aparece para conversar com os empresários, com representantes de igrejas e coisas assim. Então, a fatura já vem de antemão assegurada: a repartição de crachás de diretores a quem nada tem de competente, na feliz expressão de Ildo Sauer, ex-diretor da Petrobras, defenestrado de seu posto para abrigar Graça Foster, que caiu nas boas graças da presidente. Basta ser, então, apenas abençoado por um forte padrinho de uma das agremiações embaralhadas. Aí o busílis da questão: cada padrinho e seu respectivo partido almejam tirar o maior proveito possível do que logrou alcançar. De forma que, quando a confusão vem à tona, todos podem jogar o errado no colo uns dos outros. Vejam bem o que respondeu a atual presidente da República quando confrontada com o desastre de uma negociação nos Estados Unidos, na compra de uma empresa de petróleo. Diz ela, em nota de próprio punho, não ter sido informada, no memorando apropriado, de certos aspectos técnicos e jurídicos da negociação. E que, por isso, tanto ela quanto os demais membros do conselho votaram às escuras cláusulas altamente danosas aos interesses da Petrobras. O presidente da empresa na época afirma que as tais cláusulas eram usuais nos negócios internacionais daquele período (2006). Fica tudo muito estranho quando se sabe que o Conselho de Administração recebe com antecedência a pauta e os documentos relativos. De forma que um conselheiro atento pode, na hora da votação, tanto pedir esclarecimentos sobre um assunto quanto pedir vista da matéria. Segundo a declaração da presidente do Conselho e de vários de seus integrantes, ninguém teve essa iniciativa. Erro atrás de erro, a começar pelo erro de eleitores que procuram votar em quem tem maior apoio, erro de quem fechou o negócio e, o pior, erro na aprovação dele por parte de quem, além de presidente do conselho da estatal, ocupava o cargo de ministro da Casa Civil – justamente a pessoa encarregada de examinar com lupa a legalidade dos atos do presidente da República. Por aí já dá para imaginar quanta coisa passou no ralo naquele tempo...

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