Dona Raimunda

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salomão salviano
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Dona Raimunda tem 76 anos, dez filhos e muitos netos. Já trabalhou pesado na vida. Como mulher, acumulou a lida diária na roça, sem deixar de cuidar dos filhos, da casa, da comida. Fazia “tudo ao mesmo tempo agora”. E foi assim que se descobriu artista, lá em Itamarandiba. Estava Dona Raimunda lavando roupa no ribeirão, acompanhada dos seus dois filhos – ainda viriam os outros oito –, quando eles reclamaram de fome. Como não podia parar o que estava fazendo para acudi-los, pensou numa brincadeira: fez com o barro um passarinho e lhes disse: “quando o passarinho voar, nós voltamos pra casa e preparo comida pra vocês”. E, os meninos ficaram ali de olho no passarinho. Ele não voou, claro, mas Dona Raimunda conseguiu distraí-los até que acabasse com as roupas. Isso ela sabia quando inventou a brincadeira. O que ela não imaginava era que aquele passarinho ia transformar sua vida para sempre. Quando chegou em casa, Dona Raimunda pintou o passarinho de anil e deixou que secasse. Uma vizinha gostou e pediu que fizesse mais. Do passarinho, vieram outros objetos: imagens de santos, flores, árvores, orixás e tudo mais que a imaginação de Dona Raimunda deu conta de criar. Porque é assim o processo de criação de Dona Raimunda: tudo sai da sua cabecinha abençoada. Uma cabecinha que a fez se transformar em várias para dar conta de tudo; que saiu de casa aos 8 anos de idade para ir trabalhar de empregada doméstica; que depois de casada, trabalhou duro na roça; inventou maneiras de alimentar e vestir os dez filhos, em épocas de penúria; cuidou da mãe, que morreu aos 117 anos, até o fim; e, que, sim, mesmo sem apoio do marido, resolveu que, mesmo sem nunca ter freqüentado a escola – aprendeu a ler sozinha – o que fazia era arte e nunca deixou de fazê-la apesar de todos os pesares. E alguém a descobriu. Hoje ficaram para trás os dias difíceis porque Dona Raimunda é artista que vive do seu trabalho. Suas peças estão em exposição na Imaginação da Matéria de Minas, no Centro de Arte Popular, ao lado de 36 outros artistas populares, de todas as regiões de Minas Gerais. Na semana passada, estava lá Dona Raimunda, toda estilosa, de chapéu e roupas vermelhas, e óculos escuros, prestigiando a exposição. E foi lá que ela gentilmente conversou comigo. Fala mansa e baixa, me fez conhecer e se encantar com suas histórias. Primeiro, falou de seu processo como artista e de como foi, aos poucos, sendo descoberta. E, quando nos demos conta, ela já me contava sobre passagens de sua vida pessoal: como quando teve que alimentar os filhos com sopa de banana, durante anos, porque era o único alimento que tinha em casa, ou quando sua mãe resistiu a ir ao médico porque sabia que não voltaria mais para casa e, por isso, já internada deu todas as dicas de como queria que a filha fizesse uma canja para ela. “Pois, foi ela comer a canja, deitar e morrer, silenciosamente”, me contou Dona Raimunda. Linda trajetória a de Dona Raimunda. Mais do que material para esta crônica, Dona Raimunda me deixou lições de vida.

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