Inspiradas pelo desejo de mudança

Com memórias da ditadura brasileira, “Mulheres em Luta” estreia hoje no GNT

iG Minas Gerais | daniel toledo |

Encontros. Documentarista Susanna Lira (à direita) encontra Rioco Kayano, presa e torturada pela Ditadura
GNT
Encontros. Documentarista Susanna Lira (à direita) encontra Rioco Kayano, presa e torturada pela Ditadura

Na esteira de muitas ações que devem, ao longo dos próximos dias, convidar o povo brasileiro a refletir sobre a ditadura que há 50 anos desembarcava no país, a série “Mulheres em Luta” reconstrói aquele período a partir de uma perspectiva bastante específica. Com estreia marcada para hoje, às 21h, no canal GNT, o conjunto de cinco programas reúne dez mulheres que foram presas e torturadas pelo regime militar e se dispõem, agora, a compartilhar suas histórias na televisão.

“Comecei a pensar nessa série quando fui gravar ‘Uma Visita para Elisabeth Teixeira’, e a própria Elisabeth me contou algumas histórias que remetiam ao período da ditadura e ao que ela tinha sofrido naquela época. Com a aproximação dos 50 anos do golpe, resolvi colocar a coisa em prática e fui atrás de outras personagens dessa história”, explica Susanna Lira, diretora de “Mulheres em Luta”.

“Logo no início da pesquisa, cheguei à ala feminina do Presídio Tiradentes, onde várias desses mulheres – assim como a presidenta Dilma Rousseff – passaram meses ou anos de suas vidas”, completa Susanna, que entrou em contato com a presidenta brasileira, e o que obteve de resposta foi seu apoio, mas não sua participação. “Ela se disse simpática à ideia”, garante.

Quem assume a voz na série são a advogada Rita Sipahi, a jornalista Rose Nogueira, a bioquímica Ana Miranda, a cineasta Lúcia Murat, a filósofa Estrella Bohadana, a médica Iná Meireles, a historiadora Jessie Jane, a psicóloga Vera Vital Brasil, a enfermeira Rioco Kayano e a professora Fátima Setúbal.

“No geral, procuramos trazer figuras novas, que ainda não tivessem falado publicamente sobre o que viveram. Pessoas que experimentam certa invisibilidade, circulando em ambientes como escolas e hospitais públicos”, contextualiza a diretora, que combinou depoimentos a materiais de arquivo durante a montagem dos episódios.

Episódio de hoje. No episódio desta noite, adianta Susanna, o telespectador terá oportunidade de conhecer as trajetórias de Rita Sipahi e Fátima Setúbal. “A Rita trabalha diretamente com a Comissão da Anistia, avaliando quem deve ou não receber o benefício, assim como é ela quem, muitas vezes, faz discursos em que o Estado reconhece os próprios excessos e se desculpa oficialmente por ter passado dos limites em relação ao povo”, descreve.

De igual modo, acrescenta, a professora de história Fátima Setúbal jamais deixou de lado as vivências do período ditatorial. “Além de ter sido presa, ela teve dois irmãos desaparecidos naquela época. Mais tarde, ela ajudou a elucidar a Chacina de Quintino, durante a qual um dos seus irmãos foi morto”.

Com duração de 25 minutos sem intervalos, os episódios podem ser divididos em três partes, como explica a própria documentarista. “De início, apresentamos como cada uma delas entrou na militância, muitas vezes a partir do envolvimento de pais, irmãos ou namorados. Em seguida, falamos sobre a vida naquele período e, no final, nos voltamos à vida presente dessas mulheres”.

Entre os principais achados dessa experiência, observa a documentarista, está a percepção de que suas personagens, hoje mulheres com idades em torno dos 60 anos, deram continuidade à militância iniciada naquela época. “É muito bom ver que, de alguma maneira, essas mulheres continuam lutando por aquilo em que acreditam. Ao contrário do que muita gente poderia pensar, elas não se apresentam como derrotadas, como aquelas que ‘perderam a luta’. Pelo contrário: a impressão que se tem é que nada daquilo abalou as crenças e os valores dessas mulheres”, destaca.

“Por outro lado, me espanta perceber que a violência policial, ou seja a violência do Estado, está praticamente igual àquela época – e isso fica muito claro quando você assiste a imagens dos protestos de rua em 1968 e no ano passado. Outro aspecto que chamou minha atenção foi a capacidade dessa geração para colocar o coletivo sobre o individual. Ao contrário de muitos de nós, elas já tinham entendido que não valia à pena lutar apenas pelo próprio umbigo”.

Fique ligado

“Mulheres em Luta” estreia hoje, às 21h, no canal GNT. Com direção de Susanna Lira e realização da Modo Operante, a série é formada por cinco capítulos de 25 minutos.

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