Em alta na Turquia, Cicinho se diz arrependido e 'faria diferente'

Lateral-direito afirmou que "estava vislumbrado com a fama" quando defendeu o Atlético, e diz que ainda tem uma pendência financeira para receber

iG Minas Gerais | GABRIEL PAZINI* |

Cicinho é o líder de assistências da Turkey Süper Lig com 12 passes para gol
Reprodução/Facebook
Cicinho é o líder de assistências da Turkey Süper Lig com 12 passes para gol

Cicicho não teve uma saída amigável do Atlético. Com cinco meses de salários atrasados e mais onze meses de fundo de garantia, o lateral-direito acionou a Justiça e deixou o Galo rumo ao São Paulo. Além de ter uma saída turbulenta, a passagem de Cicinho pelo Atlético ficou marcada por alguns bons jogos, mas também por problemas extracampo com álcool e noitadas.

No entanto, dez anos depois e mais maduro, Cicinho se diz arrependido e afirma que "faria tudo diferente" se pudesse voltar no tempo. Em alta na Turquia, o lateral-direito é um dos destaques do Sivasspor, time comandado por Roberto Carlos, que está brigando por vaga nos torneios continentais e é a sensação da temporada turca.

Líder de assistências da Turkey Süper Lig com 12 passes para gol, Cicinho, em entrevista exclusiva ao Super FC, falou dos tempos de Atlético, da excelente fase no Sivasspor, e ainda contou histórias interessantes, como a amizade com o goleiro Doni, que foi seu "empresário" na transferência do Real Madrid para a Roma.

Confira o bate-papo da reportagem com Cicinho:

Como surgiu o convite para jogar no Sivasspor?

Eu estava no Sport, em fim de contrato, estava estudando algumas propostas do Brasil - do Bahia e do Vasco, na época em que o Paulo Autuori estava lá -, mas aí, o Roberto [Carlos, técnico] me procurou, dizendo que tinha o interesse em mim, perguntando se eu queria jogar fora do Brasil ainda. Ele disse que estava começando a carreira como treinador e perguntou se eu poderia ajudá-lo na Turquia. Gostei do convite e da proposta e vim para a Turquia.

Você acha que o fato de você e o Roberto Carlos terem jogado juntos no Real Madrid foi um fator determinante nessa sua ida para a Turquia?

Sim, acho que foi de tudo um pouco. Jogamos juntos no Real Madrid, já nos conhecíamos, tem o lado extracampo e também pela minha condição como jogador. Aqui na Turquia, só podem jogar cinco estrangeiros por clube, então tem que escolher bem. O clube precisava de um lateral, e aí, ele me procurou.

 

Como você explica o sucesso do Sivasspor, que é um time mediano, sem muita tradição, não tem um elenco recheado de grandes jogadores, mas faz excelente campanha no Campeonato Turco?

Aqui na Turquia, apenas cinco clubes conquistaram a Liga Turca: Galatasaray, Fenerbahçe, Besiktas, Trabzonspor e Bursaspor. Nunca teve uma equipe pequena ameaçando. Mas o Roberto Carlos tem um nome muito forte e fez diferença. As equipes e a mídia olham de uma forma diferente. E ele faz um bom trabalho, a equipe entendeu a forma de trabalho dele e tem dado certo. Ele montou bem o elenco também e as contratações de estrangeiros foram muito boas, todas deram certo. Quando uma equipe pequena ganha do Fenerbahçe e empata com o Besiktas como fizemos, vira sensação. Não é o Sivasspor que está muito bem, é o time do Roberto Carlos, é até engraçado [risos].

 

Você esperava viver essa fase tão boa na Turquia?

Não vou dizer que esperava, mas acreditava que poderia ir bem. Eu não fiquei nervoso, nem ansioso, porque sempre rezo muito. Eu sempre peço ajuda à Deus, então vim para cá confiante em fazer um bom trabalho, e tem dado certo.

 

Como foi a adaptação ao Sivasspor? Teve algum choque cultural?

Até que não tive muita dificuldade com o país e a língua, porque tenho tradutor e a vida aqui está boa. O que complica é o frio. Já peguei -25 Cº aqui e olha, é f***.

 

O Sivasspor vinha numa excelente sequência, venceu até o Fenerbahçe, mas depois caiu de produção. Já são quatro derrotas seguidas e cinco jogos sem vitórias. O que aconteceu?

Geralmente, quando o jogador reclama de arbitragem ou alguma coisa, cria polêmica, mas o que tem se comentado aqui na televisão, é justamente a arbitragem. Tem prejudicado muita gente [a arbitragem], inclusive o nosso time. Perdemos alguns jogadores, eu mesmo fui expulso e tomei dois jogos de gancho, nosso capitão também, teve jogador nosso que tomou seis jogos de suspensão. Mas a gente ficou um pouco acomodado também, só que o Roberto [Carlos, técnico] puxou nossa orelha e acordamos. Não posso jogar o próximo jogo, mas espero estar de volta contra o Galatasaray, que é o grande jogo que esperamos.

 

O objetivo do Sivasspor é a vaga na Liga Europa?

É o nosso objetivo sim essa vaga na Liga Europa, mas também sonhamos com vaga na Champions League. E é possível, porque Fenerbahçe e Besiktas não poderão disputar a Champions League por causa da punição, e com isso, se terminarmos no quarto lugar, vamos pra Liga dos Campeões.

 

Além de ser jogador de futebol, qual outro sonho você tinha quando criança? Chegou a realizá-lo?

O meu sonho era jogar no São Paulo, porque cresci ali e vi grandes jogadores atuarem pelo clube. Eu realizei esse sonho. Outro grande sonho era conquistar uma Libertadores, e também realizei esse sonho, além de defender a seleção brasileira. Tive sorte por ter realizado todos os sonhos que tinha quando garoto.

 

Como você avalia a sua passagem pelo Real Madrid? Você esperava chegar tão longe na sua carreira?

Eu vou poder contar para os meus netos que joguei no Real Madrid e numa equipe que ficou conhecida como os Galáticos. É um privilégio para poucos. Foi maravilhoso jogar pelo Real Madrid, um grande sonho realizado. Foi uma passagem muito abençoada. Tive uma lesão, mas depois voltei e atuei bem em algumas partidas. Sou muito grato ao Real Madrid.

 

Quem foi o seu grande parceiro no futebol, aquele com quem teve mais afinidade?

O Doni [ex-goleiro] é um amigo particular que faz parte da minha carreira. Começamos juntos no Botafogo de Ribeirão Preto, e quando saí do Real Madrid para a Roma, ele praticamente fez toda a negociação. Ele que fez as traduções na hora de conversar com os dirigentes e me ajudou com o contrato.

 

Qual foi o auge da sua carreira?

O São Paulo foi o meu auge pelos títulos que conquistei, a Libertadores.

 

Qual o seu momento de superação pessoal?

Foi em 2011, quando resolvi me entregar mais a minha carreira e aos caminhos de Deus. Eu tenho dado muito testemunho falando de problemas com álcool e noitadas. Abandonei isso e recuperei minha carreira, que não passava por uma boa fase justamente por causa da bebidas e das más companhias, que tiravam meu foco. Mas isso é bom porque mostra que a vida de um jogador de futebol é normal, ao contrário do que as pessoas pensam. Estou sendo abençoado e vivendo um bom momento, sou muito grato a Deus por tudo isso.

 

Com o bom momento que você está vivendo na Turquia, tem clube brasileiro querendo te repatriar?

Não sei, meu representante é turco, e a gente não tem conversado muito. Sei que existem propostas, mas não sei quais clubes. De qualquer forma, tenho mais um ano de contrato com o Sivasspor e a chance de renovar por mais um ano ou dois.

 

Tem vontade de voltar ao futebol brasileiro?

Tenho vontade de voltar sim. Estou muito feliz na Europa, tenho 33 anos e estou com um bom condicionamento físico. Eu ficaria muito feliz com propostas para voltar, mas olharia com calma, com o Roberto [Carlos, treinador] e conversaria.

 

Olhando hoje, mais de 10 anos depois, você faria algo diferente na sua passagem no Atlético?

Eu faria tudo diferente. O que eu vivi de 2001 a 2003 no Atlético Mineiro foi ruim. Eu estava vislumbrado com a fama. O Lúcio Flávio foi um grande amigo meu no Atlético. Me dizia que a vida não era só álcool, noitada e mulher. Hoje, por exemplo, eu me olho no espelho e tatuagem é uma coisa que me incomoda muito. A ciência avançou tanto... Eu queria que Deus iluminasse alguém para criar uma máquina que tirasse tatuagem sem dor. Mas enfim, o passado e o pecado deixam marcas. Eu não me orgulho do que fiz, me arrependo e faria tudo diferente.

 

Fazendo um paralelo do Atlético daquela época com o atual, o Atlético era muito desorganizado naquela época, com muitos problemas extracampo, e hoje evoluiu nesse sentido, ou apenas o time dentro de campo que é melhor? Como você avalia esse crescimento do time que conseguiu realizar o sonho de conquistar a Libertadores?

Não vou falar de questão de administração. Não era problema de administração, mas sim de investimento. O Atlético já tinha algumas pessoas como o próprio Kalil, naquela época, mas estava investindo de maneiras erradas, e isso afetou um pouco. Mas o maior problema que eu tive no Atlético Mineiro, foi a questão salarial. Eu tinha cinco meses atrasados e onze meses de fundo de garantia. Alguns colegas me incentivaram a entrar na Justiça e achei que era meu direito. Mas sou grato e agradeço ao Atlético. A diferença hoje, é que tem pessoas competentes como o Kalil e o investimento tem sido bem feito.

 

Você guarda alguma mágoa do Atlético por essa saída conturbada ou se arrepende?

Não, de forma alguma. Sou muito grato ao Atlético e não tenho mágoa com ninguém. Eu faria as coisas de uma forma diferente, mas não me arrependo de ter saído do Atlético.

 

Ainda existe algo pendente na Justiça?

Sim, ainda existe uma pendência. Tem a questão do meu passe e essa briga judicial pelo meu passe e dinheiro que tenho que receber do Atlético ainda, mas já ganhei em 3ª instância.

*com supervisão de Leandro Cabido