Só 35% dos salões esterilizam adequadamente os alicates

Clientes correm risco de pegar doenças graves como hepatite e até mesmo a Aids

iG Minas Gerais | Raquel Sodré |

Juliana Ladeira, da UFMG, pesquisou 235 salões de Belo Horizonte
Juliana Garbaccio / Divulgacao
Juliana Ladeira, da UFMG, pesquisou 235 salões de Belo Horizonte

A proprietária de um pequeno salão no bairro Sagrada Família, na região Leste de Belo Horizonte, é criteriosa na higienização dos instrumentos que usa para fazer as unhas das clientes. Todos eles são lavados com água e sabão, banhados em álcool a 70% e depois passam por horas de calor intenso dentro da estufa. Ela ainda garante nunca usar o mesmo instrumento – alicate, palito de limpeza ou espátula – sem passar pelo ritual.

Todo o cuidado, porém, pode não garantir que os apetrechos fiquem esterilizados. “Qualquer pessoa consegue abrir a estufa em qualquer momento, e o processo de esterilização deve ser contínuo. Outro problema é o fato de o equipamento não atingir a mesma temperatura em todo o seu interior”, explica a doutora em enfermagem pela UFMG Juliana Ladeira Garbaccio, que pesquisou os riscos de contaminação nos salões de beleza da capital em sua tese.

Em visitas a 235 estabelecimentos dos 600 cadastrados na Prefeitura de Belo Horizonte, ela descobriu que somente 35% deles possuem autoclave, equipamento mais seguro para a higienização de instrumentos. “Nas áreas da saúde, o uso de autoclave já é obrigatório. Nos salões, não”, explica. O aparelho utiliza o método de calor úmido, muito mais eficiente do que o calor seco. “A autoclave também trava a porta e só abre ao final do ciclo”, explica a pesquisadora.

“Sei que o ideal é a autoclave e já penso em comprá-la há muito tempo. Mas é um investimento muito alto”, diz a proprietária do salão, que preferiu não ter a identidade revelada. O espaço foi aberto há 13 anos, recebe visitas periódicas da Vigilância Sanitária e tem autorização para funcionar.

A pesquisa de Juliana descobriu também que somente 38% das manicures têm vacinação completa contra a hepatite B – doença que apresenta 40% de chance de contágio quando há contato com o sangue contaminado. “As manicures sabem que têm que tomar as vacinas, mas alegam esquecimento ou falta de tempo de ir a uma unidade de saúde”, afirma a pesquisadora.

As visitas aos salões mostraram que 98% das manicures admitiram já ter “tirado um bife” de alguma cliente, e 60% delas disseram utilizar os instrumentos do salão – usados em clientes – para cuidar das próprias unhas. Somente 28,5% das profissionais utilizam algum equipamento de segurança, como luvas, nos atendimentos.

Riscos. Fazendo as unhas em um salão, os clientes correm risco de entrar em contato com fungos – responsáveis pelas micoses –, bactérias e vírus, principalmente os das hepatites B e C e até o vírus HIV. “(Este último) é mais frágil. As chances de contaminação pela hepatite são bem maiores”, assegura a pesquisadora.

A prevenção a todas essas possíveis doenças pode estar em uma atitude simples: levar seu próprio kit de manicure quando for ao salão. É o que faz a massoterapeuta Magali Marques Satlher. Uma vez por semana, ela vai ao salão fazer as unhas e leva tudo: alicate, palitinho, tolha e esmalte. “Meu kit normalmente já fica dentro do carro, vou variando só o esmalte e a toalha, que preciso lavar. Acho que todo mundo deveria fazer isso”, ensina ela, que diz “morrer” de medo de contaminação.

Magali já reparou que a maioria dos salões normalmente esteriliza o alicate, mas não se preocupa em trocar outros acessórios para cada cliente. “Mas, e a lixa, o palito e a toalha? Morro de nojo daquela toalha úmida e suja de esmalte”. (Com Aline Reskalla)

“As manicures sabem que têm que tomar as vacinas, mas esquecem ou alegam falta

Juliana Ladeira Garbaccio - Doutora em enfermagem e pesquisadora da UFMG  

Vacinação

Gratuita. As vacinas contra a hepatite B são disponibilizadas gratuitamente na rede pública de saúde para os profissionais de saúde e também para as manicures, sempre expostas ao risco da doença.

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