Para não falar da marcha

iG Minas Gerais |

A realização de uma nova Marcha da Família com Deus, no sábado passado, não merece ser tratada num espaço como este. Motivos transbordam para deixar esse episódio de lado. Como fato noticiável, até que houve atrativo em função do inusitado da situação. Já do ponto de vista da adesão, foi um fiasco. Deparar-se com meia dúzia de gatos pingados com cartazes e bandeiras do Brasil é algo que brocha qualquer repórter. Mas não é por ter sido fracassado que se deve desconsiderar o evento. É justo celebrar uma data histórica, como 7 de setembro, 21 de abril ou 13 de maio, mas defender a reedição da história é querer voltar no tempo, e o tempo não retrocede. A julgar pelas imagens, os grupos minguados que se juntaram eram majoritariamente de faixa etária avançada, mas saudade, ainda que coletiva e para quem sente, não deve ser confundida com reivindicação política. Além disso, falar em ameaça de comunismo no Brasil a esta altura? Que bobagem! Nossas instituições nos colocam mais próximos dos Estados Unidos ou da Coreia do Norte? Aqui, pelo menos legalmente, os cidadãos têm direitos individuais garantidos, os partidos políticos são 30 ou mais, e qualquer um pode se juntar para falar mal da presidente da República e tornar suas opiniões públicas. No campo econômico, os bancos, o agronegócio, as empreiteiras, são todas instituições lucrativas (e como), e a maioria, privada. Golpe é coisa tão ilógica como uma nova intervenção militar. Ora, as Forças Armadas não são as mesmas de 50 anos atrás, possui hoje uma composição mais heterogênea e uma relação diferente com a sociedade civil. Assim, é perda de espaço, de tempo, de tinta e saliva ficar discutindo essas hipóteses. Parece tarefa tão vazia de sentido como a de defender um regime autoritário diretamente responsável pela cassação de direitos civis e políticos e por exterminar e fazer desaparecer pelo menos 500 pessoas. Os métodos de repressão, admitidos por reservistas ainda hoje, chocam, principalmente tomando-os como praxe estatal. É sandice ou ignorância reivindicar o retorno daquele tipo de Estado. E para os loucos e os ignorantes não há argumento melhor do que o silêncio. Ainda assim, tem capacidade de rechaçar um dado momento social e político quem não o viveu por não ter idade? Claro que não, afinal de contas, a história contada e ensinada é permeada pela ideologia hegemônica, no caso, a civil e democrática. Seria correto, portanto, considerar a viabilidade do retorno das instituições escravocratas no Brasil? E é preciso ser judeu para repelir o nazismo? Bem, são tantas e tantas outras as razões para ignorar a tal marcha “reloaded” que, ao descrever esses porquês, a gente acaba por tratar dela. Mas tudo bem. Qualquer cidadão tem o direito de se associar a outros e se expressar nas ruas para merecer alguma atenção dos contemporâneos.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave