De ex-dono de sebos a autor

Evandro Affonso tem se dedicado a dar oficinas literárias com lema de Noel Rosa: “Samba não se aprende na escola”

iG Minas Gerais | Júlio Assis |

Novidade. Evandro Affonso Ferreira anuncia para este ano um novo romance, que já tem título: “Nunca Houve Tanto Fim como Agora”?
Record
Novidade. Evandro Affonso Ferreira anuncia para este ano um novo romance, que já tem título: “Nunca Houve Tanto Fim como Agora”?

Na continuidade de sua entrevista, o escritor Evandro Affonso Ferreira, que participa hoje do projeto Ofício da Palavra, no Museu de Artes e Ofícios, fala de sua experiência como ex-dono de dois sebos em São Paulo, da atividade de ministrar oficinas literárias, de sua aversão à internet, entre outros assuntos.

Sim, montei dois sebos em São Paulo: Sagarana e Avalovara. Muita gente boa me visitou. Era acervo de qualidade. Acho que foi justamente por isso que fali: excesso de qualidade. Uma vez Ruy Castro apareceu lá, olhou espantado uma banqueta com uns 200 livros, quando observei: ‘Você percebeu que o pior aqui é o Borges?’ Rimos às escâncaras, como diriam nossos avós. Escrevo para driblar a melancolia, acho. Outra coisa: escrevo também para ganhar prêmio em dinheiro e comprar uma quitinete. Uma vez um amigo me perguntou: E seu projeto da casa própria? Respondi: está na página 78. O Prêmio Jabuti oferece uns tapinhas nas costas – além de 2.500 e poucos reais com desconto e tudo. Hipocrisia dizer que não gostei; recebi uns 200 ‘imeios’ – fiquei todo-todo, me achando o Guimarães Rosa de Araxá (eh-eh).Pelo que acompanho de sua carreira, embora você seja um tarado por literatura, ex-gerente de livraria e dono de sebos em São Paulo, sempre foi cético em relação à profissão de escritor. O que mudou em sua vida a partir do prêmio Jabuti? O que representou para você o prêmio?

Oficina literária, ixe, jeito esquisito de escritor ganhar dinheiro. Dou uma com a minha amiga Marcia Tiburi no Espaço Cult. Somos sinceros: indicamos muita leitura, puxamos orelhas etc e tal. Mas sempre penso nele, Noel Rosa: ‘Samba não se aprende na escola’. Você tem se dedicado a ministrar oficinas literárias, como tem sido essa experiência?

Foi uma brincadeira da Marcinha – nunca entrei nisso não. Ela, querendo me homenagear, chamou nossa oficina de Grogotó. Sou desplugado, sim. Respondo ‘imeio’ vez em quando. Detesto internet, esse treco todo. Vivo em livrarias falando com amigos ao vivo, olho no olho – todos muito cultos, mas plugadíssimos. Você diz que mão gosta de internet, é desplugado, pré-socrático, mas há pouco tempo foi criado em sua homenagem o blog Oficina Grogotó, com a Marcia Tiburi, como você viu essa iniciativa e em que pé ela está?

Saí de Araxá com 10 anos de idade. Fiquei em Brasília até os 18. Vivo em São Paulo há cinquenta anos. Sim: impossível sair de mim mesmo – nasci em Minas, sou mineiro. Lembra de Drummond? “O dia em que saí de Minas – se é que saí de Minas”. Ah! Ter participado da feira literária em Araxá foi bacana demais – a primeira vez que fui como escritor. O querido Afonso (Borges) nos brindou montando mesa de quatro primos para um debate corporativíssimo: o Dirceu, a Leila Ferreira, o Marcel Souto Mayor e eu. Foi prazeroso. Você saiu muito cedo de Araxá para Brasília e depois São Paulo, acha que preserva algo de mineiro na sua personalidade? Como foi participar do Festival Literário de Araxá no ano passado?

Acho que essa coisa de idade depende muito do talento de cada um: demorei muito porque errei muito. Tentei, ameacei vários livros, todos piores do que os que foram finalmente publicados. Aos 45 acertei a mão: “Grogotó”, livrinho de minicontos – todo mundo gostou muito. Recebi na época elogio até do Millôr Fernandes, grande Millôr – que será homenageado agora na Flip – merecidamente.Pedro Nava começou a escrever depois dos 60 anos, você, se não estou enganado, publicou seu primeiro livro lá pelos 55 anos; ter decidido se dedicar integralmente à literatura já mais velho, ajudou na sua opinião à qualidade da sua literatura, por já ter uma formação mais sólida e pela maturidade?

AGENDA

O QUÊ. Projeto Ofício da Palavra com o escritor Evandro Affonso Ferreira, vencedor do Prêmio Jabuti de literatura 2013 na categoria romance

QUANDO. Hoje, a partir das 19h30

ONDE. Museu de Artes e Ofícios (praça da Estação, centro)

QUANTO. Entrada franca

Obras

“Grogotó”, editora TopBooks, 2000

“Araã”, ed. Hedra, 2002

“Erefuê”, ed. 34 Letras, 2004

“Zaratempô”, ed. 34 Letras, 2005

“Catrâmbias”, ed. 34 Letras, 2006

“Minha Mãe se Matou sem Dizer Adeus”, ed.Record, 2009

“O Mendigo que Sabia de Cor os Adágios de Erasmo de Rotterdam”, ed. Record, 2012

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave