Insólito artesão das letras

Ganhador do Prêmio Jabuti de 2013, Evandro Affonso Ferreira participa hoje em BH do projeto Ofício da Palavra

iG Minas Gerais | Júlio Assis |

Em casa. Mineiro de Araxá, Evandro reside há cerca de 50 anos em São Paulo, onde consolidou a sua literatura
Paula Johas divulgacao
Em casa. Mineiro de Araxá, Evandro reside há cerca de 50 anos em São Paulo, onde consolidou a sua literatura

O andarilho protagonista do livro “O Mendigo que Sabia de Cor os Adágios de Erasmo de Rotterdam”, de Evandro Affonso Ferreira, costuma se lembrar no romance, de como a sua amada desaparecida gostava de defini-lo: “Insólito; você é insólito”. A expressão também cabe bem para definir a desconcertante literatura desse escritor mineiro de Araxá radicado em São Paulo há cerca de meio século. Insólito.

A carreira literária começou em 2000, com a publicação do volume de minicontos “Grogotó”. Desde então são sete livros de narrativas nada convencionais e o reconhecimento veio com esse mais recente deles, “O Mendigo...”, vencedor do Prêmio Jabuti de 2013 na categoria melhor romance.

Convidado de hoje do projeto Ofício da Palavra, no Museu de Artes e Ofícios, Evandro antecipa na entrevista a seguir, detalhes do seu processo de trabalho em que mescla erudição e caos urbano; uma busca contínua pela sonoridade das palavras que embute humor mesmo ao tratar das vicissitudes humanas.

Atualmente, Evandro se prepara para lançar seu próximo livro e tem ministrado oficinas literárias no Laboratório de Escrita Criativa no Espaço Revista Cult, juntamente com a filósofa e escritora Marcia Tiburi. Para ela, Evandro é “o nosso atual grande artesão da língua portuguesa”. Marcia acrescenta. “Ele é um ourives. Um escritor incomum em nosso contexto de ‘tendências dominantes’ vendidas ao mercado. Mas sei que ele tem surpreendido também em termos de mercado, o que me dá esperança nas pessoas dos leitores, pois estes demonstram ser mais sensíveis do que o mercado pede que sejam. Evandro é alguém que está além do nosso tempo em termos de literatura. Ele faz a coisa, não escreve por menos”.

Como foi o processo de escrita de seu livro vencedor do Prêmio Jabuti, “O Mendigo que Sabia de Cor os Adágios de Erasmo de Rotterdam”. Foi semelhante ao do anterior, “Minha Mãe se Matou sem Dizer Adeus”, em que você passou meses frequentando a doceria de um shopping para observar e criar o seu romance? Quando numa tarde qualquer caminhava entre a praça Marechal e o Copan, em São Paulo, percebi que num trajeto de oito, nove quadras havia pelos menos 80 mendigos. Pensei: um dia faço um livro sobre esse tema. Estava nessa época escrevendo a mão “Minha Mãe se Matou sem Dizer Adeus”, numa confeitaria de shopping. Falava, digamos, telepaticamente com todos os frequentadores. Quando terminei o livro, voltei nesse mesmo shopping, em confeitaria diferente, e comecei a “montar”, por assim dizer, meus mendigos. Imaginei uns dez, 11 debaixo de um viaduto. Falando, bebendo, brigando, assim por diante. Não conversei com nenhum mendigo, criei um narrador-mendigo que andava havia dez anos pelas ruas da cidade esperando a amada, que, evidentemente nunca chega. Ao longo do livro, ele fala sobre Erasmo de Rotterdam (é um mendigo culto) e sobre os outros mendigos que estão à sua volta. Não sei falar muito bem sobre meus livros: sou passarinho, não sou ornitólogo.

Você tem dito que sua literatura se divide em antes e depois do “Minha Mãe…”, porque antes se preocupava com a vida da palavra e agora, com a morte do homem, muito presente também em “O Mendigo...”; mas essa questão não tem a ver com o domínio que você conseguiu ao longo do tempo, sobre a palavra, a forma, a narrativa; e agora tem a priori uma outra preocupação, com a realidade? Ainda me preocupo com a sonoridade das palavras – sou um, digamos, músico frustrado. Gostaria de ser o Paulinho da Viola da literatura. Acho também que a mudança radical sobre o conteúdo dos meus livros deve-se ao meu envelhecimento. Sim: preocupo-me agora mais com a morte do homem do que com a vida das palavras. Nunca fui escritor engajado politicamente, nada disso, minha questão é a solidão, o suicídio, o desamor, a morte, as questões intrincadas da alma humana: a inveja, o ciúme, a prepotência, a hipocrisia, assim por diante. O mendigo surgiu pensando em mim mesmo. Se de repente minha amada me abandonasse, possivelmente viveria pelas ruas de São Paulo declamando Drummond, ou Dante, ou seja quem for, e escrevendo as iniciais do nome dela em todos os espaços vazios da cidade. Não sou uma pessoa nobre o suficiente para pensar nos outros: no fundo penso apenas em mim. Claro que agindo assim atinjo literariamente outras pessoas tão desvalidas existencialmente quanto eu.

Seus romances têm essa característica do narrador que fala a um interlocutor no texto, que pode ser também o leitor, é uma marca mesmo da sua prática na escrita, uma necessidade na sua narrativa? É um recurso, não sou muito afeito a diálogos. Conclusão: fui treinando o tal do fluxo de consciência, treinando, até aprender um tiquinho. Acho que sou craque nesse treco. Escrevo livro de 130 páginas direto, sem parágrafo, nada.

E essa mescla da erudição, da filosofia, com o mundo urbano, você vê isso como forma de chamar atenção dos leitores para os pensadores, para os livros, enfim? Invento personagens eruditos entre aspas para ler mais, criar uma tarefa complicada para mim mesmo. Agora mesmo estou escrevendo um livro cuja narradora “dialoga” o tempo todo com Antígona. Para tanto, tenho lido tudo sobre essa peça de Sófocles. Aliás, todo mundo já falou dela – desde Hegel a Goethe etc. Um divertimento para mim. Minha narradora está na UTI morrendo. O livro começa assim: ‘Vem, luminosa Antígona, seja minha carpideira: eu também estou sendo enterrada viva’. De modo que é assim: dou um ‘cheitinho’ para que meus livros sejam entre aspas eruditos para que eu possa cobrar de mim mesmo muitas leituras interessantes.

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