A China pode entrar em crise?

“(...) o papel da juventude na sociedade é como uma célula nova e vital no corpo humano... Se o metabolismo de uma sociedade funcionar normalmente, ela prosperará; se os velhos apodrecidos dominarem a sociedade, então ela cessará de viver.” (escrito em 1915 por Chen Duxiu, principal fundador do Partido Comunista Chinês em 1921)

iG Minas Gerais | Ari de Oliveira Zenha/Economista |

Inicio este texto com uma citação de um trecho do estudo que fiz há alguns anos sobre a economia chinesa para uma palestra: “O aumento das forças produtivas chinesas nos últimos 30 anos e o elevado e contínuo crescimento de sua economia indicam um êxito da nação chinesa dentro dos marcos do desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo mundial. O desenvolvimento desigual e combinado caracteriza-se pelo desenvolvimento de algumas parcelas da economia mundial, e, freando e atrasando outros setores. É ao mesmo tempo um desenvolvimento combinado, em que, países atrasados e avançados têm uma ação recíproca entre eles, há a necessidades dos países atrasados alcançarem os mais desenvolvidos e apossar-se de suas técnicas, de suas ciências, etc. Esses sinais de atraso associam-se à última palavra da técnica mundial.

Deng, o maior incentivador e o principal implantador das reformas realizadas a partir de 1978 argumenta que o mercado é só um instrumento econômico, que se emprega de forma indistinta tanto no capitalismo como no socialismo. Porém os próprios chineses já estão sentindo, na sua sociedade, o seu real significado. O mercado não é algo neutro, ou um instrumental técnico que possibilita à sociedade utilizá-lo para a construção, edificação do socialismo, ele é ao contrario do que diz Deng, um instrumento do capitalismo e é inerente à sua estrutura como modo de produção. A sua utilização no âmbito da construção do socialismo traz consigo perturbações, desvios e formações de ordem capitalista, que inviabilizam a passagem do modo de produção capitalista para o socialismo. O mercado não é um instrumento técnico, que se usa e depois pode ser descartado sem nenhuma consequência ou problema para a sociedade, ele é isto sim, um instrumento legitimador e estrutural do capital.”

Com essa introdução sobre a China nos remetemos aos dias atuais em que o editor de economia da BBC, Robert Peston, numa reportagem especial “How China Fooled the Word”, ou seja, numa tradução livre; “Como a China enganou o mundo”, transmitido neste mês de fevereiro, no canal de TV BBC2, alerta para uma possível crise na economia chinesa.

A reportagem deve ser levada em consideração pelos dados que contém como também das injunções que estabelece não só da economia chinesa para dentro como para fora dos seus limites territoriais. São colocações factuais, pontuais, mas que servem de alerta e de certa explicitação do que está ocorrendo e pode ocorrer na China.

O prefeito de Wuhan está gastando quase 800 bilhões de Reais em um plano de desenvolvimento de cinco anos com o objetivo de transformar a cidade que já conta com 10 milhões de habitantes em uma megametrópole mundial, que segundo ele vai disputar com Xangai a posição de segunda cidade do país. Ele ainda está construindo centenas de edifícios residenciais, anéis viários, pontes, ferrovias, um sistema de metrô e um aeroporto internacional. O centro da cidade está sendo demolido para dar lugar a um centro comercial, incluindo um arranha-céu de mais de 600 metros que custará 11,9 bilhões de Reais.

O plano, ou melhor, o projeto é impressionante, não só pelo volume de recursos financeiros como o “espírito” megalomaníaco que os atuais, que chamo de Mandarins vermelhos, querem e estão realizando na China.

Os Mandarins vermelhos do Partido-Estado chinês imbuídos de projetos faraônicos estão construindo mais de 30 aeroportos, sistema de metrô em 25 cidades, um novo arranha-céu a cada cinco dias, segundo a reportagem que me fundamento. Mais do que isso, estão construindo as três pontes mais extensas do mundo e mais de 9,6 mil quilômetros de rodovias de alta velocidade. Isto é uma “modernização” assombrosa que também está aliada a empreendimentos imobiliários comerciais e residenciais gigantescos.

Enquanto os Mandarins do Partido-Estado chinês realizam estes projetos mirabolantes, a classe trabalhadora chinesa é submetida a uma superexploração, a baixíssimos salários sem bem dizer nenhuma assistência à saúde, moradia digna e liberdade democrática.

A crise econômica que teve seu estopim em 2008 tem levado à China consequências graves não só para o seu projeto de desenvolvimento/crescimento extremamente dependente das relações econômicas externas, ou seja, as exportações para o Ocidente como a diminuição em suas taxas astronômicas de crescimento. Com a crise mundial diversos setores da economia chinesa, mesmo aquelas com alto desenvolvimento agregado de tecnologia e mesmo as indústrias de base como de aço tem diminuído a compra de matéria prima e voltado para o seu imenso mercado interno. A formação de uma classe média na China que alguns especialistas calculam em torno de 400 milhões de pessoas, o aparecimento de ricos e milionários e da propriedade privada, tudo isto é visto pelos países e organismos internacionais do capital internacional com bons olhos. Segundo a reportagem da 'BBC', multidão de chineses na sua quase totalidade de migrantes pobres está sendo forçada a voltar para suas aldeias de origem. O governo “comunista” chinês lançou um pacote econômico, como é conhecido por nós, de dimensão descomunal, o equivalente a 1,5 trilhões de dólares de gastos estatais diretos e começou a emprestar dinheiro, ou seja, crédito.  Antes da crise de 2008 o investimento chinês era em torno de 40% do seu PIB, após 2008 quando a crise estourou plenamente, os investimentos do governo passaram para 50% do PIB e se mantém. Quanto à expansão do crédito na China, não se conhece verdadeiramente a sua dimensão, mas têm crescido para atender à nova realidade vivida pela economia. No inicio de 2008 o setor bancário chinês, tinha um tamanho calculado em 10 trilhões de dólares, agora, deve girar em torno de 24 a 25 trilhões de dólares; segundo dados da analista Charlene Chu equivale ao total do setor bancário comercial norte americano atual, que, segundo ela, demorou mais de um século para ser constituído. Os membros, ou vários deles, do Partido-Estado estão envoltos, segundo a reportagem, em ganhos milionários, notadamente no setor imobiliário e de infraestrutura. Será que é de interesse do capitalismo internacional, globalizado, ter uma China com crescimento extremamente baixo, isto levando em consideração os índices históricos apresentados por ela, em crise, e indo mais além, convulsionada internamente pelas próprias contradições geradas pelo tipo de desenvolvimento/crescimento de um capitalismo estatal implementado há décadas e com uma população próxima dos 1,4 bilhões de habitantes? A reportagem da TV BBC2 embora aponte algumas inconsistências e mesmo evidências contraditórias da economia e política chinesa, ela (a reportagem) enviezadamente, teme uma débâcle da estrutura econômico-política e social da China; será? O capitalismo globalizado, embora aparentemente e mesmo concretamente tenha conflitos econômicos e geopolíticos com a China, têm fortes interesses que uma China estável econômica e politicamente seja preservada, pois ela atende aos interesses e necessidades do capitalismo globalizado e neoliberal, apesar de parecer paradoxal.  

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