Para casa em excesso e muito difícil desequilibra famílias

Especialista alerta que extraclasse é importante, mas exagero pode criar aversão aos estudos

iG Minas Gerais | Natália Oliveira |

Com filhos em escola pública, Maria acha para casa uma tarefa árdua
Arquivo pessoal
Com filhos em escola pública, Maria acha para casa uma tarefa árdua

“Tem dia que minha mão até dói”. A reclamação da pequena Elisa Mares Medrado, 7, se refere às tarefas extraclasse que ela faz diariamente. O volume excessivo e o alto grau de dificuldade do para casa de algumas escolas particulares e públicas estão desgastando as crianças e criando desavenças entre elas e os pais. Especialistas alertam que o dever de casa é importante, mas precisa ser dosado para que a aversão aos estudos seja evitada. Coordenadora de escola de dança, a mãe de Elisa, Renata Mares, 40, contou que a menina chega a ficar quatro horas fazendo para casa. “Essa é a hora mais estressante do nosso dia. Vai indo ela começa a ficar cansada e damos início às brigas para que ela faça as atividades”, contou Renata. Ainda de acordo com ela, Elisa não consegue fazer algumas atividades sozinha. “Tem para casa que é mais para os pais do que para os filhos. No ano passado, por exemplo, nós tivemos que fazer um exercício que exigia fazer uma pesquisa na internet. Ela ainda não faz isso”, destacou Renata. O problema se repete com outras famílias. A técnica de enfermagem Elizabeth Andrade, 37, tem dois filhos, o caçula Juan Andrade, 8, e Maria Eduarda Andrade, 11. Ensinar aos dois os exercícios estava tão difícil que a mãe os colocou em uma aula particular de reforço. “Havia alguns exercícios que eu nem conseguia ensinar para eles. Fora que eu chegava muito cansada do trabalho e ficava sem paciência para ajudar”, contou a técnica de enfermagem. Ainda de acordo com as mães, um outro problema é que as crianças acabam não conseguindo ter horário para brincar. “Em vez de aproveitarmos juntos o pouco tempo que temos disponível, acabamos em ‘pé de guerra’”, ressaltou a enfermeira. Especialista. Professora de sociologia da educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Tânia Resende destaca que a atividade extraclasse é importante para reforçar o aprendizado da sala de aula. No entanto, ela ressalta que o para casa deve ser bem-orientado e não pode ser muito extenso, o que poderia gerar aversão aos estudos e diminuição do interesse pela escola e pela aprendizagem. “O ideal é que o dever de casa represente, para o estudante, um nível intermediário de dificuldade”, explicou a professora.

Orientações

Autonomia. Os pais precisam deixar os filhos solucionarem sozinhos as atividades. A família pode ajudar, mas deve deixar a criança raciocinar.

Ambiente. O dever de casa deve ser feito em lugar bem-iluminado, arejado e sem muitas interferência sonoras – longe de som e televisão.

Dúvidas. É importante que as crianças levem algumas dúvidas do para casa para a sala de aula. Somente assim os professores poderão estar cientes das dificuldades dos estudantes.

Paciência. Os pais devem ter calma para ensinar os exercícios para as crianças. Do contrário, o extraclasse pode virar um martírio para o aluno.

Situação é pior nas particulares O volume de exercícios é maior nas escolas particulares do que nas instituições públicas, segundo observam especialistas em educação.

Com três filhos de 6, 10 e 11 matriculados em escola estadual, a vendedora Maria Rachel Barros, 33, concorda, mas avalia que as tarefas são muito difíceis.

“O volume de para casa não é muito, mas às vezes, devido à complexidade dos exercícios, eu não consigo ajudar os meus filhos”, afirmou. (NO) Equilíbrio

Ponto. Se o para casa for de realização muito fácil, perde o sentido e vira mera obrigação. Se for muito difícil, é inadequado para ser feito em casa, gerando desmotivação e desgastes. Especialista.

Estudo em um turno não justifica exagero Como há poucas escolas em Minas com horário integral, os professores enviam mais exercícios para casa, na tentativa de compensar o tempo em que as crianças não estão na escola, segundo especialistas.

A educadora Sofia Morales ressalta que muitas vezes os professores dão dever de casa com o intuito de e não de simplesmente reforçar uma atividade trabalhada em sala. “Isso não é correto. Mesmo com carga horária mais curta (que a escola integral), eles (os professores) querem que as crianças aprendam mais”.adiantar um conteúdo

Ela ressalta que há pontos positivos e negativos na escola integral. Os deveres de casa no sistema, segundo João Gomes, psicopedagogo e professor aposentado pela Universidade Federal de Minas Gerais, também devem ser bem-orientados pelos educadores. (NO)

 

 

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