Barba que combina com maiô

Ator, performer e arte-educador, Ed Marte fala ao Magazine sobre trajetória que mistura arte e vida

iG Minas Gerais | daniel toledo especial para o tempo |

fotos mendes jacinto/divulgação
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Quem acompanhou o Carnaval belo-horizontino provavelmente se deparou, ainda que de relance ou nas páginas do Facebook, com a carismática imagem de Ed Marte. Figura onipresente na emergente festa da capital mineira, com sua inconfundível combinação entre barba e maiô, Ed ainda arrumou tempo para integrar júris de concursos de marchinhas e fantasias, consolidando-se como uma espécie de referência local quando o assunto é Carnaval. Até mesmo algumas fantasias de Ed Marte, vale dizer, foram vistas durante a folia da cidade.

Ator, performer e arte-educador, Ed tornou-se Ed Marte há pouco mais de três anos, quando começou a incorporar com mais frequência, ao próprio visual, alguns elementos do guarda-roupa feminino, ampliando cada vez mais seu acervo de saias, vestidos e maiôs. Foi em meio ao surgimento da irreverente Praia da Estação, conta o artista, que se consolidou essa abertura.

“Essa história começou porque eu ia de maiô, num clima de brincadeira, e aquilo começou a ganhar força. Aos poucos vi que a minha presença causava alguma coisa nos ambientes, fosse nos bares ou na própria praça, e eu comecei a me divertir e jogar com isso”, sintetiza Ed, que entende suas composições femininas como continuidades – e não rupturas – com a imagem que apresenta no cotidiano. Quando participou dessa entrevista, por exemplo, Ed usava bermuda, camisa florida e chinelos.

“Quando comecei a usar as peças femininas, muitas pessoas até me perguntavam qual era a minha fantasia, qual era o meu personagem, e eu não sabia o que responder. Logo entendi que o Ed Marte não é um personagem, sou eu mesmo, testando esses limites entre masculino e feminino, recorrendo a elementos dos dois gêneros sem recusar nem um, nem outro”, sintetiza ele.

Performance. Pouco tempo depois daquela descoberta espontânea, explica Ed, foram criadas suas primeiras performances concebidas como tal, dentre as quais se destacam participações no evento “Intromissões Poéticas”, coordenado pelo artista Wilson de Avelar, no Cabaré Cultural Nelson Bordello, já em 2011. “Foi ali que comecei a pensar meu trabalho como uma criação artística, a partir de performances mais estruturadas”, conta.

Integram esse leque a série de vídeos “Prazer, Ed”, criada em parceria com os videoartistas Daniel Carneiro e Renato Negrão, assim como a ação “Juraci”, apresentada em novembro do ano passado durante o evento “Outra Presença”, com curadoria de Marco Paulo Rolla, Ana Luísa Santos e Nathalia Larsen. “Experimento sempre um jogo com a minha própria imagem, tratada como uma imagem que se transforma”, observa o performer.

Ainda que a problemática do gênero ocupe a primeira camada dos trabalhos de Ed, ao artista interessa ampliar a questão. “Procuro não me enquadrar em bandeiras ou rótulos. Tem gente que me aproxima da Laerte, por exemplo, mas são histórias diferentes. Enquanto ele só se veste de mulher, eu quero ter a liberdade de vestir o que eu quiser”, acrescenta.

“Minha intenção é justamente exercer e afirmar essa liberdade, sem provocar ou desrespeitar ninguém. E acho que tenho conseguido, até pelas reações que a minha presença tem despertado por aí. Principalmente quando estou de barba, o que fica é um clima de dúvida no ar”, conta o artista.

Cada vez mais integrado ao circuito da performance, com apresentações em espaços como o Museu de Arte da Pampulha e o Sesc Palladium, Ed segue realizando a maior parte de seu trabalho artístico em meio à própria vida, tendo a experiência da rua e a interação com o público como importantes pilares dessa criação.

Em seus próximos planos, adianta, figura um cenário situado a alguns quilômetros da praia de concreto que lhe deu origem. É no hiperpopular Piscinão de Ramos, garante o artista, que deve ser filmado o próximo vídeo da série “Prazer, Ed”. “Hoje em dia, a performance é o que eu vivo – é a minha vida. Sou eu, testando os limites dessa vida, de como viver”.

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