Fora das quatro linhas

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salomão salviano
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Na avalanche de informações diárias que nos atropelam, grandíssima parte entra em um ouvido e sai por outro, mas pelas mais diversas razões algumas param em nosso filtro cerebral e ficam por ali a pedir que você faça a sua reflexão, formule a sua versão para aquele fato e faça dele o que a sua consciência lhe recomendar – assimile como conhecimento, relegue, esqueça ou coloque em discussão em seu círculo. Do futebol vieram na semana passada duas polêmicas manifestações fora dos gramados ainda não deletadas da minha memória mesmo depois da exibição dos mais belos gols da rodada. Não necessariamente em ordem cronológica, a primeira partiu do goleiro Rogério Ceni, que em entrevista após reunião do Bom Senso Futebol Clube, movimento de jogadores por melhorias no futebol, declarou: “Você ilude o povo através do futebol. O futebol esconde do povo as atitudes mais promíscuas dos nossos políticos”. A outra veio do juiz de direito Gilberto Azevedo Morais Costa. Ao determinar que fossem soltos três torcedores do Corinthians que estavam presos por causa da invasão do centro de treinamento do clube, onde praticaram atos de agressão, ele justificou assim: “Tudo não passou de um ato de revolta dos torcedores. Fiéis que são – que o próprio clube se orgulha disso – eles pediram para que os jogadores honrassem o salário que ganham, mostrando o futebol verdadeiramente brasileiro”. No caso do Ceni é preciso situar o contexto, explicar que a afirmação dele ocorreu em meio a uma argumentação em defesa de mais apoio ao esporte como um todo. “Precisamos de alguém com boa vontade, alguém que queira, além de política, cuidar do esporte”, disse antes. Isso, porém, não reduz a controversa colocação do goleiro sobre o poder ilusório do futebol. Da forma como foi dita, permite a interpretação de que o apoio que ele pede ao esporte se justifique pela “ilusão do povo”, para esconder a promiscuidade de políticos. Uma coisa é o entretenimento e o interesse dos fãs de esportes, politizados ou não, black blocs ou analfabetos; outra é achar que todos são uniformemente ludibriados pelos dribles dos atacantes. O tema é, a propósito, pertinente em meio a tudo que tem se falado agora pela efeméride dos 50 anos do golpe de 1964. Muito se discutiu depois daquele período negro sobre o uso do futebol pelos militares como forma de esconder o que se fazia nos porões da ditadura, as perseguições políticas e a tortura, enquanto a seleção canarinho brilhava com o tricampeonato mundial. São fatos incontestáveis em relação à grande massa da população, o que não quer dizer que ocorra hoje na mesma proporção. Basta lembrar as vaias à presidente Dilma Rousseff na abertura da Copa das Confederações, no ano passado. Para fugir do mesmo constrangimento ou maior, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, já declarou que não haverá discursos na abertura da Copa do Mundo, em junho próximo. Não é mais passível de generalização o conceito de “massa de manobra”, de manipulação coletiva como tocar gado em fazendas. Os tempos são outros, e um exemplo a mais disso está nas reações que surgiram de todos os lados contra a decisão do juiz Gilberto Azevedo. Em épocas passadas raramente se ousava contestar publicamente a decisão de uma autoridade do Judiciário. Hoje, a população não se cala diante de atentados como esse em que a determinação de libertar os torcedores estimula o que tanto se tenta combater, a violência que vem de torcidas, que já matou tantas pessoas e feriu muitas mais. De modo geral ainda não conseguimos traduzir nos resultados das urnas essa melhor formação crítica da nossa população, mas esse dia virá. 

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