A água ficou mais longe para o senhor Aristides

Acostumado com água farta e limpa em sua casa desde que nasceu, em 1925, o lavrador Aristides José dos Santos não esperava que aos 88 anos tivesse dificuldade para conseguir até mesmo o que beber

iG Minas Gerais | Ana Paula Pedrosa |

MARIELA GUIMARAES / O TEMPO
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Acostumado com água farta e limpa em sua casa desde que nasceu, em 1925, o lavrador Aristides José dos Santos não esperava que aos 88 anos tivesse dificuldade para conseguir até mesmo o que beber. O líquido, que antes corria pela propriedade situada em João Antônio, pequeno povoado de São Domingos do Prata, na região Central de Minas Gerais, secou depois que a obra do mineroduto Minas-Rio começou no terreno vizinho. Foram 41 dias sem água nenhuma, em meados do ano passado, até que uma intervenção de órgãos ambientais fez com que a empresa responsável pela obra instalasse uma caixa d’água no quintal da pequena casa.

Nos dias de seca, Aristides e a mulher, Maria Elisa dos Santos, 78, caminhavam cerca de meia hora até conseguir água na comunidade vizinha. O casal cuidava ainda de uma irmã de Aristides, de 94 anos, que faleceu pouco depois. “Ela tinha que tomar dois banhos por dia”, lembra Maria. Mesmo com a caixa d’água, o problema não foi solucionado. “A água da caixa é quente e não é muito limpa, encarde as roupas”, conta Maria.

A solução seria usar água mineral para beber, mas aAnglo mandou sete galões, também em meados do ano passado, com 20 litros cada, e não voltou mais. As embalagens vazias estão amontoadas na cozinha, e o casal de idosos continua encarando a jornada a pé e contando com a boa vontade de quem mora perto para ter água limpa e fresca para beber.

Sem forças para brigar com a multinacional, Aristides está conformado em passar os seus dias sem água potável em sua terra e espera apenas a justiça divina. “Desde criança, no tempo do meu pai e da minha mãe, eu estou acostumado com água limpa. Se essa firma soubesse que o poder de Deus é grande, não faria isso”, diz.

Inquérito. Os danos ambientais causados pelo empreendimento Minas-Rio na região de São Domingos do Prata podem ser alvo de inquérito civil movido pelo Ministério Público na cidade. O promotor Thiago Fernandes de Carvalho já se reuniu com os moradores e com o Conselho Municipal de Defesa e Conservação do Meio Ambiente (Codema).

“Solicitei o envio da documentação e estou aguardando para instaurar o inquérito civil”, diz ele, que chegou à cidade em dezembro do ano passado. Segundo Carvalho, há poucas reclamações formais contra a obra, mas muitos indícios dos danos causados. No Codema, há duas pastas com relatórios técnicos de vistorias e relatos dos moradores, fruto de audiências públicas realizadas na cidade.

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