'Não adianta brigar com empresa grande'

Os moradores de Água Quente tiveram que incluir na rotina uma caminhada de 3 km até o córrego Teodoro para tomar banho e buscar água para as atividades cotidianas

iG Minas Gerais | Ana Paula Pedrosa |

MARIELA GUIMARAES / O TEMPO
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Desde que as obras do projeto Minas-Rio, complexo que está sendo construído pela Anglo American entre Minas Gerais e o Rio de Janeiro, começaram nas imediações da comunidade de Água Quente, na zona rural de Conceição do Mato Dentro, região Central de Minas, a água sumiu. As 46 famílias que vivem no local habitam casinhas muito simples e, desde que as nascentes começaram a secar, aprenderam que a vida podia ser ainda mais dura do que era antes. Acostumados a acordar com o sol e se dedicar ao trabalho na roça, os moradores tiveram que incluir na rotina uma caminhada de 3 km até o córrego Teodoro para tomar banho e buscar água para as atividades cotidianas.

O problema durou 12 dias seguidos e foi apenas amenizado com a instalação, pela Anglo, de uma caixa d’água para abastecer o povoado. “Ainda falta água, mas é só uns dois dias. Aí a gente liga pro pessoal da firma, e eles enchem de novo”, diz, resignado, José Lúcio Reis dos Santos. Morador do lugarejo desde que nasceu, há 45 anos, ele não tem esperança de que as coisas melhorem. “Não adianta brigar com empresa grande. Já ouvi muita promessa”, diz.

Problemas com água são comuns em todo o trajeto da obra e são graves, já que, segundo estudo da consultoria Diversus, encomendado pelo Ministério Público de Conceição do Mato Dentro e realizado em 2011, entre as comunidades afetadas pelo empreendimento em Conceição, Dom Joaquim e Alvorada de Minas, só 6,5% das casas usam rede pública de água. A maioria (93,5%) se abastece em nascentes, rios, brejos, poços e similares.

Também morador do local, Renato dos Santos Reis, 34, teme que a situação piore. “Será que eles vão continuar colocando água quando a obra acabar?”, pergunta. A resposta é não. O gerente geral de desenvolvimento social da Unidade de Minério de Ferro da Anglo American, Maurício Martins, explica que a empresa vai implantar um sistema de captação “profissional”, com base em especificações técnicas da Copasa, e que será gerido pela prefeitura. “Esses problemas vão acabar, e a qualidade da água deles vai melhorar”, garante.

A água encanada, no entanto, não vai resolver o problema de João Generoso Filho, 65, que conta os prejuízos da extinção do córrego Passa Sete no povoado. O leito em que antes corria o rio agora parece uma estrada de terra, onde o mato cresce à vontade e, em alguns trechos, alcança 1 metro de altura. Sem água, o moinho e o engenho deixaram de funcionar e os bebedouros dos animais secaram.

Ele diz que, desde o início da obra, as águas não eram mais as mesmas, até que secaram de vez. “A água vinha vermelha. A gente cozinhava e lavava roupa com água suja. Não dava nem para os animais beberem.” O que Generoso conta de memória, os pesquisadores da UFMG atestaram em um relatório feito em 2010. Segundo o Grupo de Estudos em Temáticas Ambientais (Gesta), já naquela época a água do córrego Passa Sete era “muito suja, com aspecto muito barrento”.

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