Cuba faz condomínio fechado para os comunistas mais fiéis

Com a abertura econômica, partidários precisam da ajuda do governo para manter o status

iG Minas Gerais | Damien Cave The New York Times |

Paredes dos prédios do complexo são pintadas com cores fortes
Todd Heisler / The New York Times
Paredes dos prédios do complexo são pintadas com cores fortes

HAVANA, Cuba. Nos bairros mais elegantes dessa cidade em ruínas, mansões antigas estão sendo reformadas com tijolos importados. Os empresários almoçam sushi e dirigem Audis luxuosos. Agora, esperando acompanhar essa tendência, o governo está construindo algo especial em seu benefício: um empreendimento habitacional chamado Projeto Granma, com centenas de apartamentos confortáveis, em um condomínio fechado que terá cinema e escolas próprias.

Cuba está em transição. As reformas econômicas dos últimos anos abalaram a ordem estabelecida de classe e condição social, permitindo que os cubanos que possuem pequenas empresas ou têm acesso a capital estrangeiro cheguem mais alto que muitos comunistas fiéis.

Enquanto esses novos caminhos rumo ao prestígio se expandem, desafiando o antigo sistema de recompensas pela obediência, o presidente Raúl Castro está redobrando esforços para melhorar a vida dos fiéis e manter sua lealdade – hoje e depois que os irmãos Castro partirem.

O Projeto Granma e as “cidades militares” semelhantes que estão por todo o país são edifícios tranquilos da cor do Caribe, reservados para os mais ardentes defensores da Revolução Cubana de 1959: famílias ligadas aos militares e ao Ministério do Interior.

Com sacadas, ar-condicionado e recém-pintados, os novos apartamentos são os presentes mais notórios do governo para seus funcionários médios e um claro sinal da nova economia híbrida de Cuba, em que o Estado às vezes tem de competir com a iniciativa privada.

Favoritismo. As novas moradias, uma necessidade básica com oferta extremamente baixa em toda a ilha, parecem para muitos cubanos mais uma tentativa de favoritismo. O Projeto Granma – que leva o nome do barco que Fidel Castro pegou no México para iniciar a revolução cubana – é um dos vários empreendimentos habitacionais militares do país.

Seu equivalente em Santiago de Cuba, onde começou a revolução de Castro, passou a ser criticado por cubanos que vivem com dificuldade em casas destroçadas pelo furacão Sandy. Contudo, como uma tentativa de acompanhar as tendências do setor privado ou a vida em outros países, talvez não seja por acaso que as cores e a arquitetura do Projeto Granma, no mesmo bairro que Raúl Castro chama de lar, lembram muito um condomínio na Flórida.

No cabo de guerra que vem definindo as políticas econômicas de Cuba nos últimos dois anos, o governo muitas vezes hesitou quanto a quando deixar o mercado agir e a quando proteger a ordem estabelecida do comunismo.

Jorge Dámaso, 75, que serviu por 32 anos nas Forças Armadas, disse que os líderes do país, embora desejem melhorias econômicas, querem, acima de tudo, preservar a Cuba que conhecem. “Essa é uma maneira de preservar um espaço para os poderes estabelecidos em uma futura sociedade cubana”, concluiu ele.

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