É culpa da natureza, estúpido! – O caso Bruno-Eliza Samudio

iG Minas Gerais |

“Sinto a fúria de suas palavras, mas não entendo nada do que você diz” (Shakespeare)
Intervenção sobre imagens de Abelardo, Heloísa e Galáxia a 66 milhões de anos-luz da Terra
“Sinto a fúria de suas palavras, mas não entendo nada do que você diz” (Shakespeare)

Heloísa e Abelardo ficaram na memória do mundo pela história de amor, tragédia e capacidade de superação. Ele, Pedro Abelardo, foi um dos maiores e mais ousados filósofos da Idade Média. Ela, Heloísa de Argenteuil, era escritora, erudita e abadessa. Viveram nos séculos XI e XII, há quase mil anos. Ambos pertenciam à nobreza. Estabelecido em Paris, Abelardo foi professor de Heloísa, então adolescente. Entre uma aula e outra, apaixonaram-se, vivendo a seguir uma relação intensa e iluminada, como toda paixão proibida. Tiveram um filho, chamado Astrolabius. Casaram-se secretamente, para não prejudicar a carreira de Pedro. O tio e tutor de Heloísa, o cônego parisiense Fulbert, descobriu tudo. Existem duas versões para o que aconteceu depois. Na primeira, foi o próprio Fulbert quem atacou Abelardo enquanto dormia e o castrou. Na segunda, a castração foi executada pela família de Heloísa, furiosa pelo casamento secreto. Depois de castrado, Abelardo tornou-se monge e Heloísa, freira. Corresponderam-se durante o resto da vida, sem jamais se encontrarem novamente. Ele morreu em 1142, aos 62 anos. Ela, em 1164, com 74 anos. ELIZA SAMUDIO

Filha de arquiteto com agricultora, nasceu em Foz de Iguaçu, em 1985. Seus pais se separaram quando tinha seis meses, ficando ela com o pai, já que a mãe não tinha recursos e havia se mudado para Campo Grande, MS. Com 10 anos Eliza foi morar com a mãe, casada de novo, mas só ficou um ano, voltando para a casa do pai. Desde os 13 anos Eliza sonhava tornar-se modelo no eixo Rio-São Paulo, saindo de casa aos 18 anos para realizar seu sonho. Ao que se sabe, fez pequenas aparições em filmes pornográficos entre 2005 e 2009, além de trabalhar também para a produtora erótica Brasileirinhas, com o nome de Fernanda Faria. Eliza teve um filho em 10 de fevereiro de 2010 e em 10 de julho desapareceu. Parece que conheceu Bruno em 2008. BRUNO FERNANDES Nascido em 1984, quando sua mãe tinha 17 anos, foi morar com a família paterna, mas com três meses os pais se mudaram para o Piauí, deixando-o com a avó, Estela, que o criou numa favela de Ribeirão das Neves, na região metropolitana de Belo Horizonte. Ali ele cresceu, jogando descalço com a molecada nos campinhos de terra, dois dos quais se chamavam Caveirinha e Buracão. Para ganhar algum dinheiro, vendia picolé em caixas de isopor, capinava quintais e lavava carros. Com 12 anos passou a encarar com seriedade o sonho: esteve no Democrata de Sete Lagoas e no Venda Nova. Alto para a idade (chegou a 1,90 m), tornou-se goleiro, embora, segundo os que o conheceram nessa época, fosse deficiente nas bolas baixas. Aos 17 anos, depois de passar pelo Tombense e pelo Cruzeiro, chegou ao Atlético, estreando profissionalmente em 2005. De lá para cá, sua história é conhecida de todos os que gostam de futebol ou de páginas policiais. Parece que conheceu Eliza em 2008. CONTRATO NOVO Condenado a 22 anos e três meses de prisão, Bruno foi contratado em fevereiro de 2014 pelo Montes Claros Futebol Clube, da cidade de mesmo nome. O contrato, de cinco anos, prevê o salário mensal de R$ 1.430,00 e multa rescisória de R$ 2,86 milhões. Em 2010, quando foi preso, ele ganhava no Flamengo entre R$ 200 e R$ 250 mil por mês. Para que pudesse atuar, foi pedida sua transferência da penitenciária Nelson Hungria, em Contagem, onde cumpre pena em regime fechado, para Montes Claros. Uma das condições para a transferência, é ter familiares na cidade. Para garantir isso, contam que sua mulher, a dentista Ingrid Oliveira, se mudou para lá, pretendendo montar um consultório. O pedido foi negado pelo juiz Francisco Lacerda de Figueiredo, sob a alegação de que o presídio local está com excesso de lotação, mantendo 1.032 presos, quase 450 a mais do que sua capacidade. PRESOS DEMAIS Não é novidade a superlotação dos presídios brasileiros. Todo mundo sabe disso. Cidades do interior chiam quando governos estaduais ameaçam construir novas prisões em seus territórios. Milhares de “bandidos” continuam soltos porque não há onde enfiá-los. Por outro lado, todo mundo sabe que meter “bandidos” em cadeia serve apenas para torná-los mais agressivos e, em vez de socializá-los, empurrar essas criaturas para mais fundo, no abismo sem fundo da criminalidade. Não é com presídios novos que salvaremos a classe média dos “bandidos” que a atormentam. Mas a classe média, os políticos, os policiais, os jornalistas, os donos da verdade não estão nem aí para a verdadeira razão da criminalidade crescente. Fingem não enxergar. Nasceram cegos e continuarão cegos até a morte. É A NATUREZA, ESTÚPIDO! Lá atrás, num passado remoto, ficaram as ossadas de Heloísa e Abelardo. Naquela época a sociedade era dividida entre ricos poderosos e pobres desvalidos. Heloísa e Abelardo eram intelectuais refinados. Eliza e Bruno são pessoas de origem humilde e tentaram subir na vida, aos trancos e barrancos. Dando sorte. Ou dando azar. A equação mudou, mesmo que a natureza humana (ou animal, como se queira) não tenha mudado absolutamente nada. Atormentados pelo instinto sexual, como todo macho, Abelardo e Bruno caíram sobre Heloísa e Eliza, que gostaram, deitaram e rolaram. Um dia, teremos de enfrentar para valer a discussão sobre Bem e Mal, sobre quem é “bandido” e quem é “cidadão acima de qualquer suspeita”. A natureza não é idiota. Se comparei casais tão distintos, tão distantes, tão socialmente desiguais, foi para tentar entender – e explicar – porque somos levados tão longe em nossas ações. Animais como os outros, somos predadores por vocação, interesse e destino. Para mim, tudo. Para você, nada. Em qualquer época de todos os tempos.

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