Como aprendemos a amar

Definidor de uma geração, “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças” completou dez anos na última semana

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Icônico. Kate Winslet e Jim Carrey interpretaram o casal que representou toda uma geração, no filme vencedor do Oscar de melhor roteiro original
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Icônico. Kate Winslet e Jim Carrey interpretaram o casal que representou toda uma geração, no filme vencedor do Oscar de melhor roteiro original

Em seu livro “Lágrimas de Luz”, o professor Heitor Capuzzo afirma que o romance no cinema é uma afronta aos deuses. O idílio amoroso de um casal representa o momento em que meros mortais atingem o Olimpo, caminhando sobre nuvens como um deus, e tamanha ousadia deve ser punida. Por isso, a felicidade romântica é tão frágil.

“Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças”, que completou dez anos nesta semana, traz uma imagem que representa perfeitamente essa ideia. Nela, Joel (Jim Carrey, nunca melhor) e Clementine (Kate Winslet, que merecia o Oscar) olham para as estrelas e filosofam poeticamente, felizes, apaixonados, enquanto ignoram a vulnerabilidade da fina camada do lago congelado sobre o qual estão deitados.

É a cena que definiu “romance” para os nossos tempos. Com o longa do diretor Michel Gondry e do roteirista Charlie Kaufman, toda uma geração de jovens imaturos de vinte e poucos anos aprendeu a amar no século XXI. Todos se enxergavam na insegurança passivo-agressiva do tímido Joel pensando “agora, ela vai tomar um gole de cerveja e ficar grossa”. Todos queriam ser Clementine naquele final, no corredor, sintetizando uma geração com “eu não sou um conceito, Joel. Eu sou só uma garota fodida, tentando encontrar minha paz de espírito. Não me responsabilize pela sua”.

Era um momento que muitos já tinham vivido, e que muitos outros tomariam emprestado nos anos seguintes para terminar, ou resgatar, seus relacionamentos. Porque “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças” foi o filme que nos ensinou que se apaixonar por alguém era uma sorte. Decidir amar essa pessoa significava abraçar uma maldição de cometer o mesmo erro pelo resto da vida. Nas palavras melancólicas de Leonard Cohen, “o amor não é uma marcha da vitória. É um grito de socorro, um aleluia partido”. A decisão de permanecer com alguém em uma casa que pode desabar a qualquer momento.

Ter 20 ou 30 anos e assistir ao longa em 2004 era como a geração dos anos 1960 deve ter se sentido ao ver “Jules e Jim” ou “A Primeira Noite de um Homem” pela primeira vez. Uma mistura do alívio e da descoberta de que “alguém me entende”. A trama – em que um casal decide apagar a memória de ter conhecido um ao outro após um fim traumatizante, mas ao enxergar o relacionamento de fora, percebe que não quer desistir dele – era a combinação perfeita do humor cínico daquela geração com sua necessidade honesta e patológica por se conectar, sem saber como.

Uma dualidade que a canção-tema “Everybody’s Gotta Learn Sometime”, do Beck, resumia bem. A contraposição da impossibilidade de “mude seu coração, olhe ao seu redor” com o apelo “eu preciso do seu amor, como da luz do sol”.

Não é por acaso que toda uma safra de filmes tentaria repetir a fórmula no restante da década (veja box). A maioria, claro, não conseguiu. Sem “Brilho Eterno”, não haveria “(500) Dias com Ela” ou o recente “Ela”, de Spike Jonze. Mas o fato é que o encontro da genialidade visual de Gondry com o profundo entendimento da alma humana de Kaufman é daqueles eventos únicos na história do cinema.

Do tipo que sabe que o cabelo de Clementine não muda de cor porque ela é uma pessoa diferente em cada cena – metáfora que seria usada em um filme mais bobo e raso. Ele muda porque existe um monte de pessoas diferentes dentro de nós. E nem sempre nós somos quem queremos ser em determinado momento. E isso, às vezes, não é o bastante – especialmente no desafiador nado sincronizado que é um relacionamento com outra pessoa.

Numa nota pessoal, “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças” foi meu primeiro texto sobre cinema a ser publicado oficialmente. Relendo dez anos depois, é fácil encontrar uma série de pequenos equívocos ou coisas que eu teria escrito diferente – comparar o filme a “uma música do Coldplay com um riff do White Stripes” era uma tentativa desesperada demais de ser cool. Mas se tivesse que voltar, eu escreveria tudo de novo. Porque quando você encontra algo que ama tanto assim, não se importa de cometer o mesmo erro de novo e de novo e de novo... pelo resto da vida.

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