Interpretação à flor da pele

Ator conta que, desde quando viu sua mãe atuar em um texto de Manoel Carlos, queria trabalhar com o autor

iG Minas Gerais | márcio maio |

Intimidade. Gabriel Braga Nunes exalta a forma sensível e íntima que Manoel Carlos imprime em seus personagens
Jorge Rodrigues Jorge/CZN
Intimidade. Gabriel Braga Nunes exalta a forma sensível e íntima que Manoel Carlos imprime em seus personagens

Trabalhar com Manoel Carlos era um desejo antigo de Gabriel Braga Nunes. Desde que viu sua mãe, a atriz Regina Braga, se entregar à interpretação da amargurada Lídia de “Por Amor”, novela escrita pelo autor em 1998, o ator começou a prestar mais atenção no texto dele. Agora, na pele do flautista Laerte de “Em Família”, garante experimentar uma sensação bem similar à vivida por Regina na época. “São tramas que abordam os personagens de uma maneira muito íntima. Eu alimentava a vontade de trabalhar um texto escrito com essa sensibilidade”, afirma. Chega a ser contraditório, mas Gabriel Braga Nunes não gosta de aparecer. Mesmo depois de 18 anos de carreira na TV, ele ainda se incomoda com as câmeras fotográficas apontadas para si e filtra bem as declarações que quer – ou não – dar. Primeiro, pela postura mais reservada. Mas também por defender que não é a exposição do elenco de uma novela que vai levantar os resultados na audiência. “Me assusta um pouco ver o lado para onde tudo isso tem caminhado. As pessoas se preocupam em saber da minha vida pessoal muitas vezes sem sequer decorar o personagem que estou interpretando”. Laerte foi apresentado na primeira e na segunda fase da novela como um rapaz com certo desequilíbrio em função do ciúme excessivo. É o tipo de personagem que deve transitar entre as linhas de mocinho e vilão no decorrer da trama? Ele é o herói romântico da trama. Teve, sim, um período conturbado na adolescência. Mas esse é um período de risco mesmo, não dá para condenar ninguém por excessos da juventude. Na terceira fase, ele já chega como um homem íntegro, maduro, talhado pela vida. A arte – em especial a música – lapidou sua sensibilidade. A dubiedade pode ser um traço do autor, não desse personagem especificamente. Este é o seu primeiro trabalho com Manoel Carlos, mas você já demonstrou vontade de trabalhar com ele antes. De onde surgiu essa admiração? Minha mãe teve uma experiência marcante em “Por Amor”, na mesma época em que fiz meu primeiro trabalho na Globo, “Anjo Mau”. Eu lia alguma coisa de texto dela e, ali, comecei a prestar atenção. Foi uma experiência muito bonita, ela ficou bem envolvida com a personagem e fez o trabalho estando muito realizada. Isso chamou a minha atenção. Manoel Carlos é um autor sensível, que aborda os personagens de uma maneira muito íntima. Eu alimentava a vontade de fazer um personagem dele e um texto escrito com sensibilidade. Acho bonita essa poesia do cotidiano, dos pequenos gestos. E Manoel tem esse dom, que me interessa bastante. E não só na televisão, no teatro também. Você não é um ator que investe tanto em laboratório e já declarou em outras entrevistas preferir descobrir o personagem com o passar dos capítulos. Manteve isso nessa novela? Sim. Eu acredito que o personagem aparece na relação que ele tem com os outros. O texto do Manoel Carlos é bastante preciso nas direções e, se você inventa muita coisa, tem boas chances de atrapalhar a história. Mas tive encontros importantes com músicos e maestros, nos quais percebi a dimensão que a música pode ter na vida de alguém. Pode ser fundamental, tão importante a ponto de outros detalhes parecerem mesmo menores. No caso do Laerte, eu enxergo a música como uma salvação. Não fosse pelo estudo da flauta, acho que ele teria sucumbido a problemas maiores na adolescência. Na última década, poucos foram seus momentos fora do ar. Como está sua relação com a televisão hoje? É verdade, fiz umas 20 novelas nesses 18 anos, desde que estreei em “Razão de Viver”, no SBT, em 1996. E não estou exausto. Ao contrário, me sinto cada vez mais satisfeito e estimulado. Trabalhar desse jeito não me cansa.

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