“Foi uma emoção sem par”

Rádio Nacional encontra discurso inédito de ex-deputado Rubens Paiva defendendo a resistência

iG Minas Gerais |

Histórico. Rubens Paiva discursou no rádio pedindo para a população lutar contra o golpe militar
EBC / REPRODUção
Histórico. Rubens Paiva discursou no rádio pedindo para a população lutar contra o golpe militar

Brasília. “Sentimento de orgulho cidadão”. Assim a filha do deputado Rubens Paiva, Vera Paiva, definiu o que a família sentiu ao ouvir um discurso inédito do então deputado, feito na madrugada do dia 1º de abril de 1964 (com o golpe militar em andamento desde o dia anterior), na Rádio Nacional do Rio de Janeiro. O áudio, no qual Paiva convoca o povo à resistência, foi encontrado nos arquivos da emissora durante pesquisas sobre os 50 anos do golpe militar e encaminhado a Vera.

“Foi uma emoção sem par para toda a família, depois de 43 anos, ouvir a voz de Rubens Paiva. Naquele tempo, a gente não tinha condição de guardar a voz. Tudo o que temos são fotos e algumas imagens, mas sem voz”, disse Vera, emocionada.

Para ela, ouvir a voz do pai 43 anos depois a deixa orgulhosa. “Orgulho profundo em ver a atitude dele de sair de São Paulo, onde morávamos, e ir até a Rádio Nacional, no Rio, para, em um ato de coragem, apoiar a legalidade”, revelou.

No discurso, de pouco mais de quatro minutos, Paiva se dirige aos habitantes de São Paulo e faz um apelo ao vivo em defesa da legalidade do presidente João Goulart.

“Desejo conclamar a todos os trabalhadores de São Paulo, todos os trabalhadores portuários e metalúrgicos da Baixada Santista, de Santos, da capital e das cidades industriais, de São Paulo e todos os universitários que se unam em torno dos seus órgãos representativos, obedecendo à palavra de ordem dos seus comandos... para que todos, em greve geral, deem sua solidariedade integral à legalidade que ora representa o presidente João Goulart”, diz o então deputado no discurso.

No dia 1º de abril de 1964, as transmissões da Rádio Nacional, em conjunto com outras emissoras, formavam uma cadeia em defesa da legalidade do mandato do ex-presidente João Goulart. Rubens Paiva desapareceu em 1971, após ser preso por uma equipe do Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica (Cisa), em 20 de janeiro, em sua casa, no Rio. Ele foi entregue ao Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) no dia seguinte.

A versão oficial da ditadura militar indicava o ex-deputado como desaparecido. Na versão divulgada pelo 1º Exército, Rubens Paiva foi resgatado por militantes de esquerda no dia 22 de janeiro de 1971, enquanto estava sob custódia dos militares. Desde então, nunca mais foi visto. As investigações da Comissão Nacional da Verdade indicam que Paiva foi assassinado, sob tortura, nas dependências do DOI-Codi no Rio.

Depoimento

Resgate. A Comissão Nacional da Verdade convocará o coronel reformado Paulo Malhães, 76, para depor sobre a operação secreta que escondeu os restos mortais de Rubens Paiva.

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