Desafiador como viajar à lua

Produzida totalmente em BH, primeira animação stop-motion 3D do Brasil estreia hoje no Conservatório da UFMG

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Meticuloso. Arnaldo Fabbri, um dos cinco animadores que auxiliaram o diretor, trabalha no design dos personagens de “Lichtenberg”
Lau Caminha Aguiar
Meticuloso. Arnaldo Fabbri, um dos cinco animadores que auxiliaram o diretor, trabalha no design dos personagens de “Lichtenberg”

Em 2004, durante uma palestra no doutorado em Linguagens Visuais na Escola de Belas Artes da UFRJ, o mineiro Lau Caminha Aguiar ouviu falar pela primeira vez sobre “Lichtenberg”. O texto é uma rádio-peça, escrita pelo famoso teórico alemão Walter Benjamin nos anos 1930, sobre o professor do título, que passa a ser observado por alienígenas após ter finalizado um mapa lunar. “Nunca soube que Benjamin tinha escrito ficção. Muito menos ficção científica”, confessa Aguiar.

Quando terminou o curso, em 2008, ele ganhou uma bolsa de pós-doutorado junior de um ano e tinha certeza do projeto que queria desenvolver: adaptar “Lichtenberg” para o cinema. Seis anos depois, o resultado final da empreitada pode ser conferido no média-metragem homônimo, a primeira animação em stop-motion 3D brasileira, que tem sua première hoje, às 20h, no Conservatório de Música da UFMG.

“Apesar de ser artista plástico, o cinema sempre foi minha grande paixão”, revela o escultor de formação. “Mas quando eu digo cinema, pressuponho a sala grande, a tela. Toda a arquitetura que permite que você entre no aparato e no sonho do diretor”, ele explica, dando uma pequena amostra da ambição que impulsionaria seu projeto.

Influências e referências. Porque de 2008 até aqui, a jornada foi longa. Com o fim da bolsa do CNPq, o cineasta teve que tirar dinheiro do próprio bolso e eventualmente parar o projeto por dois anos, até que uma verba do Fundo Municipal de Cultura permitisse a finalização do média. “Foram quatro anos, incluindo a preparação dos cenários, figurinos, peruca. Juntando o dinheiro da bolsa mais o Fundo, foram cerca de R$ 140 mil”, avalia.

O primeiro passo, na verdade, foi ter acesso ao texto original – e pagar para alguém traduzí-lo, já que ele nunca chegou a ganhar uma versão em português. O momento incluiu ainda uma decisão fundamental, vinda de um conselho do supervisor de Aguiar no pós-doc, o ex-professor de história da animação da UFMG Heitor Capuzzo. “Ele me perguntou se eu tinha os direitos do texto. Quando eu disse que não, ele me falou que meu próximo passo era correr atrás disso. Se fosse fazer o filme, que fizesse profissionalmente e do jeito certo”, lembra.

Com os direitos cedidos gratuitamente pela editora alemã Suhrkamp, Lau Aguiar começou a desenvolver o universo visual e os personagens de “Lichtenberg”, ao lado da primeira do que seriam cinco assistentes de pesquisa no pós-doc. “Desde o início, pensei em stop-motion porque queria fazer um filme em 3D e precisava de figuras sólidas que pareceriam realmente tridimensionais na tela”, justifica.

Como o texto de Benjamin se tratava originalmente de uma rádio-peça, não havia nenhuma referência – ou cerceamento – visual para a criação. A influência veio, então, do cinema – de filmes clássicos como “Viagem à Lua”, de Georges Méliès, e “Primeiros Homens na Lua”, de 1964, que contou com o trabalho do papa do stop-motion, Ray Harryhausen. “Eu queria que fosse em preto e branco, como os filmes da época em que o texto foi escrito, 1933. ‘Metropolis’, ‘Flash Gordon’, essas eram as minhas influências”, elabora.

Para o 3D, o diretor utilizou o sistema anaglífico, criado ainda no século XIX e que permite separar a leitura de uma imagem baseando-se nas cores verde e vermelho. Ele explica que se trata de um suporte 3D para o P&B, fácil de projetar porque já traz a terceira dimensão embutida na cor e pode até ser colocado no Youtube. “São dois filtros, vermelho e ciano, e cada um transforma a outra cor em preto”, explica.

Depois de tanto trabalho, Aguiar espera agora pela autorização da editora alemã para começar a circular com “Lichtenberg” por festivais de cinema. A empolgação é a de um fiel que tem a chance de subir ao púlpito e sentir o êxtase de ocupar o altar de sua devoção. “Para mim, o cinema é como se fosse um templo. Eu vou ao cinema como as pessoas vão à igreja”, compara, revelando a fé necessária para realizar um trabalho desse porte.

Lançamento

“Lichtenberg”

Onde. Conservatório da UFMG – Avenida Afonso Pena, 1.534, Centro

Quando. Hoje, às 20h Entrada franca

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