Moradores pagam por outdoor que questiona aumento de criminalidade

Iniciativa foi feita a partir de 'vaquinha' entre comerciantes do bairro Brasileia, cansados do alto índice de assaltos; segundo moradores, polícia privilegiaria participantes de rede particular integrada com a PM

iG Minas Gerais | Fábio Corrêa |

CIDADES - BETIM - MG - 21.03.2014
Moradores do bairro Brasileia , em Betim , colocaram um outdoor pedindo por maior intervencao da policia devido ao aumento da criminalidade .

FOTO : Nelson Batista / O Tempo
Nelson Batista / O Tempo
CIDADES - BETIM - MG - 21.03.2014 Moradores do bairro Brasileia , em Betim , colocaram um outdoor pedindo por maior intervencao da policia devido ao aumento da criminalidade . FOTO : Nelson Batista / O Tempo

Cansados de serem alvo constante de assaltos, moradores e comerciantes do bairro Brasileia, em Betim, lançaram mão de uma iniciativa no mínimo ousada para atrair a atenção das autoridades. Na praça que leva o nome do bairro, no centro da cidade, um outdoor, ilustrado com a foto de um homem encapuzado empunhando uma arma, questiona a negligência dos governantes. “Não importa o partido (...) Onde vocês ENFIAM [sic] o dinheiro dos impostos?”é a pergunta que atrai a atenção de quem passa por ali.

O protesto foi organizado após o professor de inglês Carlos Eduardo Lacerda, de 33 anos, testemunhar a frustração do vizinho e comerciante Elienício Carlos Viriato, de 43 anos, em tentar acionar a polícia para investigar um arrombamento que resultou em um prejuízo de mais de R$ 16 mil para a boutique do qual é proprietário. “Depois de esperar inutilmente os policiais da Companhia 174, que fica do lado da loja, fomos até lá fazer o boletim de ocorrência e, depois de terminar, tivemos de ouvir que não havia nada que eles poderiam fazer. Ficamos muito indignados e acabamos tendo a ideia de colocar o outdoor para ver se alguém se tocava da nossa situação”, conta Lacerda.

Após orçar o outdoor em R$ 395,00 para duas semanas de exibição, os dois amigos saíram pelo bairro pedindo contribuições de outros comerciantes. “Quando saímos recolhendo a 'vaquinha', chegamos à conclusão que quase todo mundo aqui foi assaltado no mínimo duas vezes este ano”. A iniciativa teve a adesão de mais 12 moradores do Brasileia, que tiveram de gastar cerca de R$ 32 cada.

A peça foi colocada na praça do Brasileia no dia 13 de março deste ano. Desde então, já conta com vários compartilhamentos nas redes sociais. Segundo Lacerda, o aumento em sequestros, assaltos e roubos tem sido sensível nos últimos dois anos. Além disso, ele diz que quase não há policiamento na região. “E a desculpa da polícia, que nunca resolve nada, é sempre a mesma: falta de contingente, de recursos”.

Polícia particular

Apesar de o crime ter sido cometido na semana antes do carnaval, Elienício, dono da loja assaltada, localizada na rua Rio de Janeiro, espera até hoje pela polícia. “Eles nem vieram aqui, falaram que não conseguiram achar a rua, que pensavam que era em Belo Horizonte. Mas marcas de digitais estão lá para todo mundo ver. Além disso, pelo que conversamos com o pessoal do bairro, todo mundo sabe quem são os autores. Mas a polícia diz que não pode fazer nada”, conta. O comerciante questiona qual o objetivo de um boletim de ocorrência. “Até perguntei na delegacia se aquela papelada inútil era pra ser usada no banheiro”, comenta, indignado.

O dono da boutique arrombada conta que outros moradores do Brasileia, que fazem parte de uma rede particular integrada com a PM, são atendidos menos de um minuto após informarem as ocorrências. “Eles têm um botão de pânico que, acionado, traz uma viatura em uns 40 segundos. O problema é que isso custa uns R$ 400, dinheiro que a gente não tem condição de pagar. E o pior: quem paga diz que funciona, e muito bem”.

Falta de recursos

Mais em conta, a solução encontrada por Lacerda e Viriato deverá ser renovada. Segundo o professor de inglês, a intenção é colocar um outdoor por mês, clamando os governantes por soluções.

Questionada pela reportagem, a Polícia Militar de Betim, por meio da assessoria, disse que apoia a iniciativa da comunidade do Brasileia, e que está à disposição para ouvir os líderes do bairro e discutir soluções. Segundo a PM, os moradores devem procurar o comandante da Companha 174, justamente aquela sondada por Elienício e Carlos Eduardo no caso do arrombamento. Porém, a polícia afirma que o problema da criminalidade não está restrito apenas a Betim, mas se alastra por todo o Brasil. Ainda segundo a assessoria da Polícia Militar de Betim, o policiamento da região estaria comprometido devido à falta de recursos.

Questão que também não foge ao conhecimento dos autores do outdoor, que constatam: "Não importa o partido, PT, PSDB, ou etc... O governo muda, porém, os sequestros, assaltos e roubos de carros permanecem o mesmo [sic]".

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