Humanos foram um dos últimos seres a entrarem no teatro da cria

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A ética da sociedade dominante no mundo é utilitarista e antropocêntrica. Quer dizer: ilusoriamente, considera que os seres da natureza somente possuem razão de existir na medida em que servem ao ser humano e que este pode dispor deles a seu bel-prazer. A tradição judaico-cristã reforçou essa ideia com o seu “subjugai a Terra e dominai sobre tudo o que vive e se move sobre ela”(Gn 1:28). Mal sabemos que nós, humanos, fomos um dos últimos seres a entrarem no teatro da criação. Quando 99,98% de tudo já estava pronto, surgimos nós. O universo, a Terra e os ecossistemas não precisaram de nós para se organizar e ordenar sua majestática complexidade e beleza. Cada ser possui valor intrínseco, independentemente do uso que fazemos dele. Tem algo a revelar que só ele o pode fazer, mesmo o menos adaptado, que em seguida, pela seleção natural, desaparecerá para sempre. Mas a nós cabe escutar e celebrar a mensagem que nos tem a revelar. O mais grave, entretanto, é a ideia que toda a modernidade e grande parte da comunidade científica atual projeta do planeta Terra e da natureza. Estes são considerados simples “res extensa”, coisa que pode ser mensurada, manipulada. O método científico predominante mantém, em grande parte, essa lógica agressiva e perversa. René Descartes, no seu “Discurso do Método”, diz algo de clamoroso reducionismo na compreensão: “não entendo por ‘natureza’ nenhuma deusa ou qualquer outro tipo de poder imaginário, antes me sirvo dessa palavra para significar a matéria”. Considera o planeta algo morto, sem propósito, como se o ser humano não fizesse parte dele. O fato é que nós entramos no processo da evolução quando esta alcançou um patamar altíssimo de complexidade. Por nós, o universo chegou à consciência de si mesmo, e isso ocorreu numa minúscula parte do universo, que é a Terra. Por isso nós somos aquela porção da Terra que sente, ama, pensa, cuida e venera. A nossa missão específica, nosso lugar no conjunto dos seres, é o de sermos aqueles que podem apreciar a grandeza do universo, escutar as mensagens que cada ser enuncia e celebrar a diversidade dos seres e da vida. E pelo fato de sermos portadores de sensibilidade e de inteligência, temos uma missão ética: cuidar da criação e ser os guardiães dela para que continue com vitalidade e integridade e com condições de ainda evoluir. Lamentavelmente, estamos cumprindo mal essa nossa missão, pois, no dizer do biólogo E. Wilson, “a humanidade é a primeira espécie da história da vida a se tornar uma força geofísica; o ser humano, esse ser bípede, tão cabeça de vento, já alterou a atmosfera e o clima do planeta, desviando-os em muito das normas usuais; já espalhou milhares de substâncias químicas tóxicas pelo mundo inteiro, e estamos perto de esgotar a água potável” (“A Criação – Como Salvar a Vida na Terra”, 2008). Se não quisermos ser expulsos da Terra pela própria Terra, como os inimigos da vida, cumpre mudar nosso comportamento face à natureza, mas principalmente acolher a Terra como a ONU, em 2009, a aceitou, como mãe-Terra, e como tal cuidar dela e reconhecer e respeitar a história de cada ser vivo ou inerte. Eles existiram antes de nós e por milhões e milhões de anos sem nós. Por essa razão, devem ser respeitados como o fazemos com as pessoas mais idosas, que tratamos com respeito e amor. Mais que nós, eles têm direito ao presente e ao futuro junto conosco. Caso contrário, não há tecnologia nem promessas de progresso ilimitado que nos poderão salvar.

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