Marcha da Família ensaia volta

Ditadura. Ato que foi o prelúdio do golpe militar de 1964 tem nova mobilização pela internet para amanhã

iG Minas Gerais | Isabella Lacerda e Tâmara Teixeira |

Mobilização. Marcha da Família no Rio teria levado às ruas 1 milhão de pessoas em 2 de abril de 1964
Reprodução/Youtube
Mobilização. Marcha da Família no Rio teria levado às ruas 1 milhão de pessoas em 2 de abril de 1964

A uma semana do aniversário de 50 anos do golpe militar, alguns grupos conservadores prometem reeditar amanhã a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, movimento que, em 19 de março de 1964, levou cerca de cem mil pessoas às ruas de São Paulo.

Neste ano, no entanto, a mobilização é consideravelmente mais tímida. Nas redes sociais, pelo menos sete eventos foram criados e 1.100 pessoas haviam confirmado, até a tarde de ontem, a presença virtual em todo o Brasil. Mas, diferentemente do fato ocorrido há 50 anos, o ato já encontra resistência: páginas foram criadas no Facebook ironizando a ação do grupo que, assim como no passado, busca “combater o comunismo no país”.

Se o movimento de fato sairá às ruas amanhã, ainda é uma incógnita. Mas, em 17 cidades de Minas a Marcha já tem data e local certo para sair. Na capital o encontro será na 4ª Companhia de Polícia do Exército, no Barro Preto. Ontem, porém, apesar de procurados pela reportagem, os organizadores preferiram não se manifestar. “Não estamos dando entrevistas devido a várias chacotas feitas com a Marcha. É um assunto sério para estar sendo ridicularizado”, respondeu um organizador.

No evento no Facebook, além das críticas ao comunismo, o grupo se posiciona de forma contrária à votação do Marco Civil da Internet e garante que o PT e partidos de esquerda planejam um “golpe” em 2014.

Análise. Segundo a professora do Departamento de História da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Regina Helena Alves, é difícil definir o perfil dos apoiadores da Marcha de amanhã. “Em 1964 era clara a participação da classe média branca, dos religiosos e moralistas. Hoje, é difícil identificar”. Porém, segundo ela, a bandeira do passado se repete neste ano. “Eles levantam bandeiras muito comuns como o combate a corrupção e a postura de alguns políticos. Apesar do espaço de tempo, o moralismo, a intolerância e a arrogância continuam”, analisa.

Na marcha de 1964, chegou-se a dizer que o público atingiu um milhão de pessoas. Mas pesquisas recentes e a análise das fotos do dia revelam que não passaram de cem mil pessoas. A superestimação, na opinião da professora, tinha o claro objetivo de justificar uma adesão popular ao golpe.

Para o professor de história da PUC de São Paulo Luiz Antonio Dias, a motivação da marcha de 1964 era mais clara. “Já existia uma articulação anterior. Os primeiros movimentos começaram em 1962. Neste ano, existem questões que podem explicar a reedição do movimento. Um exemplo é a existência de um governo mais popular, com medidas para reduzir a desigualdade social, fatores questionados pelos militares”, justifica Dias.

Segundo ele, as bandeiras que aparecerão neste ano tratarão menos do comunismo e mais de temas defendidos por uma parcela da população. “Serão críticas à homossexualidade, à defesa da criminalização do aborto e da redução da maioridade penal.”

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