A mais humana das expressões

iG Minas Gerais |

salomão salviano
undefined

A vergonha. A vergonha é um dos mais eficientes reguladores sociais que existem. A poderosa máquina de enquadramento da humanidade. O instrumento para reconhecer o grau da normalidade em todo gesto cotidiano. Não enlouqueça. Não saia por aí procurando destroços de avião em ferramentas obscuras do mundinho nerd. Se o desejo de solucionar mistérios que são o último assunto preferido da mesa de bar for incontrolável, não poste em sua conta do Twitter uma foto borrada com uma seta tosca identificando pontinhos brancos como se fossem rastros de óleo. A vergonha regula do catador de lixo ao presidente da República. Da aluna do 6º ano à celebridade do Instagram. Da colunista de jornal à atriz que trupica antes de ganhar o Oscar. Não passe ridículo. Não recorra à Justiça para limpar da internet qualquer referência a seu nome que o ligue a palavras inconvenientes. Não faça o papelão de escancarar sua intolerância à convivência democrática e/ou sua simpatia pela censura. Charles Darwin é um pioneiro no estudo científico da vergonha. Em seu livro “The Expression of the Emotions in Man and Animals”, dedica um capítulo à característica exclusiva da espécie humana de ruborizar, de corar as faces. Darwin acreditava ser a vergonha a mais peculiar e a mais humana de todas as expressões, e que seu surgimento depende de dois elementos: a reflexão sobre si mesmo e o pensamento sobre o que os outros pensam de nós. Não saia da linha. Não vá beber ao ponto de ter que ser amparada pelos assessores e virar a fofoca do dia seguinte. Não perca o melhor da festa porque não conseguiu parar na terceira taça. A vergonha pode chegar junto com a culpa, mas é bem diferente dela. A culpa é uma reação a uma ação. A vergonha é uma reação a um modelo existencial, reconhecido e legitimado. A culpa pode ser revertida. A vergonha não. Para sentir vergonha, o sujeito tem que avaliar se sua ação ou condição contraria algum referencial próprio ou de outras pessoas que lhe sejam significativas. Geralmente, a vergonha aparece quando dois desconfortáveis sentimentos se esbarram: a inferioridade e a exposição. Um encontro que se dá invariavelmente na esquina da humilhação com a vulnerabilidade. A vergonha tem horror de se mostrar. É mais fácil admitir uma porção de emoções consideradas negativas – como a raiva, a frustração e até o medo – do que ser obrigado a reconhecer publicamente que praticou algo socialmente reprovável, um ato vergonhoso. Pense antes. Pare diante do muro. Não use uma conversa entre gente conhecida para tornar concretos seus preconceitos. Entenda que o “,mas” das frases denuncia mais que justifica. Reconheça que tem coisas que precisam ser combatidas mesmo que morem dentro da gente desde sempre. A vergonha está relacionada aos fracassos, às imperfeições, às inadequações e às fraquezas do sujeito diante das regras e de seus valores. Os sem vergonha ignoram e desprezam o juízo dos outros. Não consideram condenável cometer certos atos para os quais a maioria torce o nariz. Não reconhecem no outro alguém que olha e julga. Estão se lixando. Mas ele não tem vergonha na cara? Provavelmente, não.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave