Aux Crus de Bourgogne, em Paris

iG Minas Gerais |

salomão salviano
undefined

É curiosa a reputação da culinária francesa no Brasil. Envolve uma espécie de temor reverencial, fruto possivelmente da imagem que se tem dos cozinheiros e maîtres meticulosos e dos críticos de gastronomia sem piedade, como aquele do desenho animado “Ratatouille”. Costuma-se conhecer pouco ou quase nada do que é propriamente francês. A nouvelle cuisine é que chegou por aqui, adentrando o imaginário das pessoas e o mise-en-scène de alguns restaurantes. Pouco se conhece dos pratos típicos franceses, de sua cozinha regional, ou do dia a dia dos minimercados de bairro e feiras de rua, onde o parisiense e o turista se regalam com toda sorte de verduras, legumes, cogumelos, queijos, pescados, linguiças e cortes variadíssimos de carne. Definitivamente, não é verdade que a França seja sinônimo de pouca comida e muita frescura. Tampouco é verdade que se possa definir a cozinha francesa partindo das criações de seus chefs, por melhores que sejam. A França, com seus incontáveis "terroir", sua diversidade cultural que compreende bascos, provençais, normandos, bretões, alsacianos, parisienses, ostenta uma das culinárias mais ricas do planeta, expressa em criações coletivas geniais como a bouillabaisse, o cassoulet, o coq au vin, o confit de canard, o boeuf bourguignone, a caponade, bem como numa profusão de quiches, suflês, sopas, queijos, pães. Também é de se destacar que os atos de compra, preparo e consumo de alimentos são reveladores do amor que os franceses dedicam a esse ritual. É o culto gastronômico, como traço de sua civilização, que faz alguém se deslocar duzentos ou trezentos metros além da padaria mais próxima, para entrar numa fila de cinco ou dez minutos, em busca de uma baguete ou um croissant superior aos da vizinhança. E olha que em Paris padaria boa é como estação de metrô: tropeça-se numa a cada esquina! Para perder o preconceito com a culinária francesa, é preciso começar pelo mais simples, conhecendo pratos fáceis de fazer e comer, como o boeuf bourguignone, um tipo de carne cozida especialmente saborosa, graças ao sabor intenso dos vinhos da Borgonha. E foi atrás de ambos, o cozido e o vinho, que cheguei a Aux Crus de Bourgogne, no número 3 da rue Bachaumont. Você pode descer na estação Sentier, região da Ópera. A descoberta se deu em um site francês especializado na harmonização de comida e vinho. Chequei a opinião pública a respeito no Tripadvisor e lá fomos nós. A visita confirmou a boa impressão. Repleto de homens de negócio da bolsa de valores, vizinha ao estabelecimento, o restaurante é charmoso e confortável. Elegante, sem beirar a sofisticação. É comandado pelo casal proprietário, que se esforça ao lado de um par de garçons para encaminhar a clientela às mesas, anotar os pedidos e trazer, relativamente depressa, o prato pedido. O foie gras é bem melhor que o da Maison des Truffes, objeto do último artigo, e a mousse de chocolate, divina. Os vinhos “crus” da Borgonha são excelentes. É claro que se alguém na mesa falar francês as coisas fluem melhor. As porções (isso vale para Paris em geral) costumam ser do tamanho certo para um apetite que não exceda à ignorância. E é sempre bom lembrar que primeiro prato e sobremesa fazem parte da refeição e garantem a saciedade buscada por aqueles que, muitas vezes, querem se satisfazer com apenas o prato principal. Na Itália, isso até pode rolar. Na França, sinto informar-lhe que não.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave