Drama em conflito familiar

Em sua primeira peça, Companhia Dupla escolhe texto de Hector Oliboni para falar sobre relações entre parentes

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Tensão. Trama gira em torno da relação entre as irmãs Alícia e Marcela e se estremece com a chegada de Augusto, ex-marido de Alícia
CIA DUPLA
Tensão. Trama gira em torno da relação entre as irmãs Alícia e Marcela e se estremece com a chegada de Augusto, ex-marido de Alícia

Quando se diz que uma temática é universal pressupõe-se que ela atravesse barreiras do tempo e da cultura onde nasceu para se tornar algo que diga respeito a todos (ou quase todos). Ao escolher um texto de Hector Oliboni, autor argentino, que versa sobre relações familiares conflituosas, a estreante Companhia Dupla consegue sobrepor a barreira do idioma para se aproximar do público. O espetáculo “Sombras – Toda Vaca Tem Nome Próprio” estreia hoje, na Sala Juvenal Dias.

“Nós identificamos por meio de várias pessoas, que viram nossos ensaios, que é um tema que toca os espectadores porque fala de sentimentos, de sensações ao longo da vida”, diz o diretor, Marcelo do Vale.

A peça narra a história de duas irmãs que vivem uma relação conflituosa. Alícia é artista plástica e vive na fazenda da família. Sua irmã, Marcela, mora em Buenos Aires e deseja se desfazer da propriedade. A discussão sobre a venda ou não da fazenda se estremece com a chegada de Augusto, ex-marido de Alícia, que manipula Marcela, a ponto de ter relações sexuais com ela, e demonstra seus próprios interesses na venda da propriedade. “Adaptamos coisas pra cá, mas quando a Raquel (Dutra) traduziu, tinha coisas que eram tão bonitas que decidimos manter como no original. Por exemplo, em vez de falar fazenda, mantivemos campo, porque é muito mais poético”, garante do Vale.

O interesse de começar um processo criativo partiu de duas amigas. Por coincidência, as duas Raquel (Dutra e Lauar). “Nos formamos no Cefar (Centro de Formação Artística do Palácio das Artes), já moramos juntas no Rio e eu já a tinha chamado para realizarmos um trabalho nosso. Daí nós convidamos o Marcelo e ele sugeriu um site de textos latinos”, relata Dutra. Sem ter um texto definido, as atrizes começaram diversas leituras, até chegar à peça de Hector Oliboni. “Eu deixei a escolha do texto por conta delas. Se elas gostassem, independente da minha opinião, eu dirigiria”, relembra Marcelo.

O diretor ainda acumulou outra função. A de – nas palavras dele próprio – “organizar a vida delas”. “Tinha uma coisa de trabalhar com focos. Quando me chamaram, já havia um desejo delas de três anos de trabalhar juntas, de se montar alguma coisa. E aí, as coisas não se concretizavam. Eu falei: ‘vamos mensurar o que está acontecendo pra gente montar de verdade. Então vamos trabalhar com foco, dia e hora, com tempo para as coisas acontecerem’. Eu gosto muito de trabalhar assim, porque se não a elucubração passa do limite e a gente não tem a concretização dos desejos”, diz.

O elenco da peça se completa com Rodrigo Mangah, que interpreta Augusto.

A montagem ainda contou com a valiosa colaboração de Marcelo Rodrigues, professor de dança flamenca, que ajudou na marcação de uma forte cena de estupro. “Quando eu li o espetáculo e vi a cena do estupro, veio uma intuição. Eu não quero cenas de um cara fazendo posições sexuais com a menina e a estuprando. Sim, estou fazendo teatro e a gente pode fazer outras coisas. Me veio a sensação de usar a dança flamenco para marcar a cena”, explica o diretor.Flamenco.

Os dois Marcelos se conheceram por meio de uma rede social. Rodrigues foi assistir a um espetáculo de do Vale e ficou nisso. “Precisando de um professor de flamenco e vendo lá no perfil do Marcelo que ele trabalhava com isso, tomei coragem de me apresentar e depois disso, começamos essa relação”, lembra do Vale. A escola de dança de Rodrigues, no bairro Caiçara, ainda abrigou os ensaios da montagem.  

 

Quem é?

Hector Oliboni é dramaturgo e diretor de teatro. Como dramaturgo estreou obras na Argentina, Cuba, México, Peru, França e Espanha. Recebeu vários prêmios como dramaturgo e diretor,  incluindo o Municipal de La Ciudad de Buenos Aires por “Dólares Amargos”.

Agenda O quê. Estreia “Sombras – Toda Vaca Tem Nome Próprio”

Quando. De hoje a 30/3. Sex. e sáb., às 21h; domingo às 19h

Onde. Sala Juvenal Dias (av. Afonso Pena, 1.537, centro)

Quanto. R$ 24 e R$ 12 (meia)

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