Comida boa, barata e de rua

Chefs mineiros começaram a investir nos chamados “food trucks”, prática que invadiu São Paulo recentemente e que começa a ser debatida para virar lei em Belo Horizonte

iG Minas Gerais | Lucas Simões |

Taco mexicano é uma das poucas opções de comida de rua sofisticada e a um preço acessível na capital
douglas magno
Taco mexicano é uma das poucas opções de comida de rua sofisticada e a um preço acessível na capital

Imagine ter menos de R$ 20 no bolso e poder escolher entre um prato típico espanhol, crepes feitos com massa francesa, comida vegetariana ou hambúrgueres artesanais sem conservantes: tudo isso no meio da rua, sem temer a conta de um restaurante sofisticado. A ideia, que preenche as ruas de várias cidades nos Estados Unidos e recentemente começou a tomar conta da cidade de São Paulo, também está prestes a chegar à capital mineira.

O boom dos food trucks em cidades como Nova York, onde filas enormes são vistas diariamente em torno de veículos que vendem desde cachorro-quente até sobremesas francesas, atraiu a atenção dos brasileiros por dois motivos: primeiro, pela redução em até 50% dos custos para se montar um food truck, em comparação com abrir um restaurante; e depois, pela praticidade móvel de levar a mesma comida para várias regiões diferentes.

É isso o que pretende o comerciante Luciano de Nery da Silva, 36. Depois de fazer um curso de massas na escola francesa Henri’s Creparia Artesanal, situada em São Paulo, ele desistiu de investir R$ 170 mil em um restaurante para gastar a metade desse valor em um food truck de crepes e tapioca, que pretende inaugurar até abril na capital mineira. "Eu queria fugir do tradicional churrasquinho e cachorro-quente que a gente está acostumado, apesar de adorar os dois. O problema é que abrir um restaurante, com aluguel de um espaço e todos os impostos, ia ficar muito caro”, diz.

Com um furgão na rua e sem os gastos de um negócio físico, ele diz que consegue oferecer pratos a partir de R$ 8 até, no máximo, R$ 15, produzidos com o trigo comum e o trigo sarraceno – massa fina cujo sabor é acentuado pelo gosto salgado. “Vou conseguir oferecer uma receita genuína do crepe, com a opção de massa sem glúten também, e brincar com sabores que vão da carne seca ao doce de leite. Mais para frente, quero fazer parcerias com chefes de cozinha para ter pratos exclusivos", explica.

Quem também prepara um furgão para rodar em breve pela capital é o cozinheiro Luigi Russo, 48, – que se recusa a ser chamado de chef de cozinha, mesmo tendo comandado tradicionais restaurantes da capital, como o Bar Particular, no Gutierrez, vendido por ele há dois anos. Para Russo, a comida de rua deu um salto de qualidade e de aceitação dos brasileiros nos últimos anos, principalmente pelo consequente encarecimento, ano após ano, do hábito de comer fora de casa.

Para se ter uma ideia do aumento, levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) considera que comer em restaurantes ficou 140% mais caro nos últimos 10 anos e teve uma alta de 10% apenas no primeiro mês de 2014. “Há uns cinco anos, a comida de rua era tida, no Brasil, como maléfica para a saúde, não possuía esse status que tem hoje. Depois, o fato de ficar caro comer em restaurante para quem precisa trouxe outro olhar sobre esse nicho de mercado que são os food trucks”, analisa Russo.

Batizado de La Rica Experiência, o furgão desse chef fã de rock será completamente personalizado em homenagem a Jimi Hendrix – assim como é tendência nos EUA estilizar os food trucks com decorações chamativas. Para tanto, ele vai investir nada menos que R$ 450 mil em um veículo ecologicamente correto, com 12 m² de espaço para uma cozinha com capacidade para dois funcionários trabalharem ao mesmo tempo, além de dois painéis de energia solar – que permitem uma autonomia para o veículo funcionar por 12 horas sem energia elétrica.

A ideia inicial de Russo é servir basicamente comida espanhola em porções individuais, como pratos assados que serão preparados em apenas três minutos e vão custar, no máximo, R$ 15. “Minha ideia é deixar toda a comida pré-pronta, só para os funcionários esquentarem o prato e servirem. Assim o cliente não precisa esperar para comer uma comida boa e, melhor, barata”.

Impasse. Apesar de a capital mineira abrigar outros tipos de comida de rua, como cachorro-quente e até comida mexicana, atualmente os food trucks não podem rodar na cidade justamente pela inexistência de uma regulamentação local para esse tipo de veículo, maior e mais complexo do que as tradicionais vans ambulantes – que têm em média 3 m de comprimento e peso máximo de 1.000 kg.

Geralmente, os food trucks pesam 3.000 kg e têm cerca de 6 m de comprimento. Além disso, a maioria dos veículos é formado por trailers ou furgões equipados com fogão e geladeira industriais, um tanque para detritos, um exaustor e um reservatório para economizar água com capacidade para 50 litros.

O impasse existe porque o Código de Postura (Lei 8.616/2003) de Belo Horizonte estabelece um peso máximo de 1.000 kg para os veículos de comida de rua. Além disso, atualmente só é possível comercializar lanches rápidos, água mineral, suco ou refresco industrializado e refrigerante nos furgões – sendo vetadas as bebidas alcoólicas. Para tanto, os comerciantes precisam de uma alvará de funcionamento da prefeitura, que deve ser renovado anualmente. O descumprimento das normas pode gerar apreensão da mercadoria, multa de até R$ 1.514,66 e cassação da licença do serviço.

Justamente por esse motivo, o chef Felipe Corrêa Borba, 40, proprietário do recém-inaugurado Dip’s Fine Burguer, no bairro Santo Antônio, na região Centro-Sul de Belo Horizonte, decidiu adiar a inauguração do seu food truck na capital. Desde dezembro de 2013, ele vende 26 tipos de sanduíches em uma hamburgueria gourmet onde todos os pratos são feitos de forma artesanal e sem conservantes – diferente do conceito fast food.

Em maio deste ano, Borba irá inaugurar um food truck em São Paulo com quatro dos tipos de sanduíche comercializados em Belo Horizonte. “Há seis anos, pesquiso hambúrgueres para montar algo assim. Minha intenção é atingir também a classe C, pois a hamburgueria é mais voltada para as classes A e B. Mas, infelizmente, vou ter que aguardar a regulamentação da lei na minha cidade”, lamenta.

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